“Em Cena” é uma série de textos que estou escrevendo aqui no blog, serão textos breves em que me darei ao trabalho de esmiuçar detalhadamente uma única cena, (ou algumas cenas, mas tentarei me ater ao minimalismo).
A cena que iremos analisar se inicia exatamente no momento em que a Irene profere um tapa no protagonista (sem nome próprio) nos exatos 1 hora, 06 minutos e 47 segundos de filme. Esse tapa é importante pois ele marca o primeiro ato violento envolvendo o casal dividindo a mesma cena. O tapa é ainda mais simbólico pois esse é o único ato de violência partindo diretamente de Irene, quase como involuntariamente, reafirmando Irene como um símbolo de pureza, agora manchado por meio desse ato compulsivo, e é a partir desse ato que vemos que Irene mesmo sem saber já está inserida nesse ambiente violento. Em seguida o protagonista diz:
— “Pensei que você poderia sair daqui, se quisesse. Eu poderia ir com você. Poderia cuidar de vocês.”
O que ele quer realmente dizer com essa fala, não é tão literal quanto parece, não é que ela saia apenas do apartamento ou da cidade, o que ele está pedindo é uma permissão de abandonar tudo e ir viver com ela e o filho dela. É isso que ele quer, mas primeiramente, ele precisa do consentimento e da livre vontade de Irene. E essa é a cereja do bolo. Como conseguir a sincera vontade de Irene se o “The Driver” (vamos chamá-lo assim) nunca se mostrou verdadeiramente? Como ele espera a verdade se ele mesmo nunca foi verdadeiro?? Quando a porta do elevador se abre, abre-se agora também o coração e a verdade essencial.
No momento em que portas do elevador se fecham o clima fica tenso, os dois homens se olham, “The Driver” analisa minuciosamente aquele homem desconhecido percebendo ao fundo do terno daquele sujeito uma pistola. É nesse momento que nosso personagem coloca os braços entre Irene e a conduz suavemente para o canto a protegendo-a; então ele se vira para ela, as luzes começam a perder intensidade…olhos nos olhos…e eles se beijam. (É o único beijo durante todo o filme. Com o beijo ele prova para Irene a autenticidade de seu amor.)…
…E SUA JAQUETA SE MEXE CONFORME SUA RESPIRAÇÃO…COMO SE O ESCORPIÃO ESTIVESSE VIVO E RESPIRANDO, REVELANDO SUA VERDADEIRA NATUREZA.
A fábula do escorpião e do sapo:
Na margem de um rio estava um sapo. Ele precisava chegar à margem oposta. Enquanto se preparava para entrar na água, chegou um escorpião. O escorpião também precisava chegar à outra margem, mas não podia fazê-lo: os escorpiões não sabem nadar.A contragosto viu que o sapo era a única possibilidade de chegar ao outro lado. O escorpião pediu ao sapo para ajudá-lo:— Me deixe subir nas suas costas e me transporta até a outra margem. Você é grande o suficiente e não irá se cansar.Mas o sapo, que conhecia o veneno do ferrão do escorpião, respondeu:— Nas minhas costas? Está louco! Tenho medo de seu veneno mortal!E o escorpião então retrucou:— Você está enganado em ter medo de mim! Desejo apenas atravessar o rio. É meu interesse que você fique vivo durante a travessia, pois se eu lhe ferroar, morreremos os dois, já que eu não sei nadar.Com tal raciocínio, o escorpião convenceu o sapo. Subiu, então, em suas costas. O sapo entrou na água carregando o escorpião e começou a nadar à vontade no seu meio natural.Assim que chegou no meio do rio, no ponto que era mais forte a corrente e maior o esforço do sapo, o escorpião levantou o rabo e enterrou o ferrão com toda força nas costas do sapo.Enquanto o veneno mortal se espalhava em seu corpo, sentindo que a vida se esvaía, o sapo exclamou:— Por que Você fez isso? Não vê que ambos morreremos? Eu envenenado e você afogado!E o escorpião, já se afogando, diz:— Eu sou um escorpião e esta é minha natureza.
É por isso que essa “cena do elevador” é tão importante para o filme, pois é nessa cena que o protagonista mostra para o seu amor, Irene, sua verdadeira face, sua verdadeira natureza. Na minha opinião, essa cena que se inicia em 1 hora, 06 minutos e 47 segundos de filme e vai até de 1 hora, 10 minutos e 20 segundos (Quase 5 minutos de cena) é sem sombra de dúvidas uma dos mais importantes da história do cinema Neo-noir, quiçá uma das mais importantes da história do cinema do século XXI. Todo o momento, toda a composição da cena contribui para seu grande efeito catártico.
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