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Em Cena 02: A violência poética de Drive — O Escorpião e sua verdadeira natureza

 “Em Cena” é uma série de textos que estou escrevendo aqui no blog, serão textos breves em que me darei ao trabalho de esmiuçar detalhadamente uma única cena, (ou algumas cenas, mas tentarei me ater ao minimalismo).

Poster alternativo de Drive (2011)

Para esse segundo texto da série, foi fácil escolher qual o filme tratar, difícil mesmo foi escolher a cena, mas a cena em questão é a segunda mais importante do filme, pois os primeiros minutos do filme ao som de “Kavinsky — Nightcall” é sem sombra de dúvidas o pilar do longa além de ser uma das melhores cenas iniciais da história do cinema. É, e depois dessa “rasgação de seda” já dá pra perceber que realmente gosto desse filme, então vamos lá!

Drive (2011) é um masterpiece Neo-Noir dirigido pelo excelente Nicolas Winding Refn, estrelando nomes como: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Christina Hendricks e Ron Perlman.

O inicio da cena. O tapa na cara dado pela Irene. 1 hora 06 min. 47 seg.

A cena que iremos analisar se inicia exatamente no momento em que a Irene profere um tapa no protagonista (sem nome próprio) nos exatos 1 hora, 06 minutos e 47 segundos de filme. Esse tapa é importante pois ele marca o primeiro ato violento envolvendo o casal dividindo a mesma cena. O tapa é ainda mais simbólico pois esse é o único ato de violência partindo diretamente de Irene, quase como involuntariamente, reafirmando Irene como um símbolo de pureza, agora manchado por meio desse ato compulsivo, e é a partir desse ato que vemos que Irene mesmo sem saber já está inserida nesse ambiente violento. Em seguida o protagonista diz:
— “Pensei que você poderia sair daqui, se quisesse. Eu poderia ir com você. Poderia cuidar de vocês.”

O que ele quer realmente dizer com essa fala, não é tão literal quanto parece, não é que ela saia apenas do apartamento ou da cidade, o que ele está pedindo é uma permissão de abandonar tudo e ir viver com ela e o filho dela. É isso que ele quer, mas primeiramente, ele precisa do consentimento e da livre vontade de Irene. E essa é a cereja do bolo. Como conseguir a sincera vontade de Irene se o “The Driver” (vamos chamá-lo assim) nunca se mostrou verdadeiramente? Como ele espera a verdade se ele mesmo nunca foi verdadeiro?? Quando a porta do elevador se abre, abre-se agora também o coração e a verdade essencial. 

A icônica cena do elevador

O beijo verdadeiro

No momento em que portas do elevador se fecham o clima fica tenso, os dois homens se olham, “The Driver” analisa minuciosamente aquele homem desconhecido percebendo ao fundo do terno daquele sujeito uma pistola. É nesse momento que nosso personagem coloca os braços entre Irene e a conduz suavemente para o canto a protegendo-a; então ele se vira para ela, as luzes começam a perder intensidade…olhos nos olhos…e eles se beijam. (É o único beijo durante todo o filme. Com o beijo ele prova para Irene a autenticidade de seu amor.)…

A real natureza

… logo quando os lábios se afastam, a iluminação do elevador fica mais intensa, mais forte do que antes, e ao olhar nos olhos de Irene mais uma vez….ELE..…SE VIRA PARA O ESTRANHO, BATENDO SUA CABEÇA NAS PAREDES, O GOLPEANDO…ENQUANTO IRENE NÃO ENTENDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO…ELA ESBOÇA MEDO…O HOMEM É JOGADO AO CHÃO…COMEÇA A SER CHUTADO…SUA CABEÇA É PISOTEADA REPETIDAS VEZES…SEM PARAR…IRENE ATONITA E PARALIZADA APENAS ENCARA TAL BRUTALIDADE…O HOMEM AGORA DESFIGURADO É APENAS UMA MANCHA NO CHÃO, UMA POÇA DE SANGUE…IRENE SAI AS PRESSAS DO ELEVADOR…vemos agora “The Driver” de costas, recuperando o fôlego, todo sujo de sangue, ele se vira para Irene, a encara com uma expressão mista de vergonha e alívio, Irene o olha com medo, a porta do elevador se fecha…
…E SUA JAQUETA SE MEXE CONFORME SUA RESPIRAÇÃO…COMO SE O ESCORPIÃO ESTIVESSE VIVO E RESPIRANDO, REVELANDO SUA VERDADEIRA NATUREZA.
O escorpião Vive!

_________

A fábula do escorpião e do sapo:

Na margem de um rio estava um sapo. Ele precisava chegar à margem oposta. Enquanto se preparava para entrar na água, chegou um escorpião. O escorpião também precisava chegar à outra margem, mas não podia fazê-lo: os escorpiões não sabem nadar.

A contragosto viu que o sapo era a única possibilidade de chegar ao outro lado. O escorpião pediu ao sapo para ajudá-lo:

— Me deixe subir nas suas costas e me transporta até a outra margem. Você é grande o suficiente e não irá se cansar.

Mas o sapo, que conhecia o veneno do ferrão do escorpião, respondeu:

— Nas minhas costas? Está louco! Tenho medo de seu veneno mortal!

E o escorpião então retrucou:

— Você está enganado em ter medo de mim! Desejo apenas atravessar o rio. É meu interesse que você fique vivo durante a travessia, pois se eu lhe ferroar, morreremos os dois, já que eu não sei nadar.

Com tal raciocínio, o escorpião convenceu o sapo. Subiu, então, em suas costas. O sapo entrou na água carregando o escorpião e começou a nadar à vontade no seu meio natural.

Assim que chegou no meio do rio, no ponto que era mais forte a corrente e maior o esforço do sapo, o escorpião levantou o rabo e enterrou o ferrão com toda força nas costas do sapo.

Enquanto o veneno mortal se espalhava em seu corpo, sentindo que a vida se esvaía, o sapo exclamou:

— Por que Você fez isso? Não vê que ambos morreremos? Eu envenenado e você afogado!

E o escorpião, já se afogando, diz:

— Eu sou um escorpião e esta é minha natureza.

É por isso que essa “cena do elevador” é tão importante para o filme, pois é nessa cena que o protagonista mostra para o seu amor, Irene, sua verdadeira face, sua verdadeira natureza. Na minha opinião, essa cena que se inicia em 1 hora, 06 minutos e 47 segundos de filme e vai até de 1 hora, 10 minutos e 20 segundos (Quase 5 minutos de cena) é sem sombra de dúvidas uma dos mais importantes da história do cinema Neo-noir, quiçá uma das mais importantes da história do cinema do século XXI. Todo o momento, toda a composição da cena contribui para seu grande efeito catártico.

 Leia também: Em Cena 01: Fogo Contra Fogo (Heat) — Dois homens em conflito, reflexos distorcidos em tons azuis


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