Gosto de cereja (1997) e as amoras doces que a vida nos dá


"Você não entenderia. Não que você não tenha entendimento, mas você não pode sentir o que eu sinto. Você pode ter empatia, compreender, mostrar compaixão, mas sentir a minha dor não. Você sofre e eu também, eu te entendo, você compreende a minha dor, mas não pode senti-la..."

Kiarostami e a Mostra de cinema de São Paulo

Gosto de Cereja (1997) é na minha opinião um dos melhores filmes de Abbas Kiarostami e eu pessoalmente acho impossível falar de Kiarostami sem falar de Leon Cakoff. Mas qual a relação de um com outro? Dificilmente eu ou você nos identificaríamos tanto com o cinema iraniano, mas Leon Cackoff (1948 - 2011) foi crítico, criador e organizador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e Kiarostame além de colaborar muito com a Mostra, foi um grande amigo pessoal de Leon. A primeira vez que ouvi falar de Kiarostami foi exatamente em uma reportagem na TV sobre a Mostra de Cinema de São Paulo lá em torno de algum momento de 2000 ou 2001.


Um filme sobre as pequenas coisas da vida

Existem filmes que parecem mais interessados em nos escutar do que em simplesmente contar uma história. Taste of Cherry, do diretor Abbas Kiarostami, é exatamente esse tipo de experiência: um filme silencioso, arenoso, quase imóvel, mas que aos poucos vai cavando algo dentro da gente. Não é um filme sobre respostas. É um filme sobre permanecer tempo suficiente diante de uma pergunta.
E que pergunta é essa?
 "Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia" - Albert Camus
Durante boa parte da narrativa, acompanhamos o senhor Badii (Homayoun Ershadi) dirigindo pelas ruas áridas de Teerã procurando alguém disposto a ajudá-lo em uma tarefa incomum: enterrá-lo após seu suicídio. Ele oferece dinheiro, insiste, conversa com desconhecidos, atravessa paisagens secas e colinas que parecem existir entre a vida e o vazio. O mais curioso é que Kiarostami nunca transforma isso em espetáculo. Não existe música dramática tentando nos conduzir emocionalmente, nem grandes revelações sobre o motivo daquela dor. O filme simplesmente aceita o silêncio do personagem, como se entendesse que algumas tristezas não conseguem ser traduzidas em palavras.


Vamos acompanhando Badii tentando convecer quem entra em seu carro, mas lentamente percebemos que o filme entende que o desespero nem sempre possui uma origem clara. Às vezes ele apenas existe, ocupando espaço dentro da rotina. Badii dirige, conversa, observa trabalhadores, soldados, estudantes, idosos… mas parece emocionalmente desconectado de tudo ao redor. Como se o mundo continuasse funcionando enquanto ele já estivesse parcialmente ausente dele.

Cada pessoa que entra naquele veículo carrega uma visão diferente sobre a vida, sobre a morte e sobre o próprio ato de continuar existindo. Alguns recusam o pedido por motivos religiosos, outros por medo, outros simplesmente porque não conseguem compreender aquela escolha. Mas ninguém ignora completamente a dor de Badii. Mesmo sem entender, todos parecem sentir que existe algo profundamente humano naquele homem cansado.


Kiarostami filma tudo de maneira extremamente simples, e talvez seja justamente essa simplicidade que torne o filme tão íntimo. Os planos longos, as estradas vazias, o som do vento e da terra transformam Teerã quase em um estado emocional. A paisagem árida reflete o interior do protagonista. Não existem excessos aqui. O diretor parece remover tudo que poderia distrair o espectador até restarem apenas duas coisas: um homem e sua solidão. Esse Não é um filme sobre a morte, mas sobre "as amoras doces" da vida.

Existe algo profundamente bonito na maneira como o longa encontra pequenos detalhes cotidianos capazes de interromper momentaneamente o vazio existencial do protagonista. Uma conversa inesperada, o som da chuva, a luz atravessando a paisagem. Como se Kiarostami estivesse dizendo que continuar vivo talvez não dependa de grandes razões filosóficas, mas dessas pequenas experiências quase invisíveis que ainda nos conectam ao mundo.

E então vem o final...



Um dos finais mais desconcertantes da história do cinema. De repente, a narrativa rompe sua própria ilusão e revela a equipe de filmagem, as câmeras, os bastidores daquele universo que acompanhamos até então. É como se Kiarostami puxasse o espectador para fora da ficção e lembrasse que o cinema também é vida acontecendo. Que até mesmo um filme sobre morte continua sendo feito por pessoas respirando, caminhando, observando o céu, registrando imagens. Esse final nos mostra que mesmo quando tudo parece ser muito solitário, nunca estaremos de fato sozinhos

Talvez seja por isso que “Gosto de Cereja” permaneça tão atual e tão impossível de esquecer. Porque ele não tenta nos convencer de nada. Não oferece respostas fáceis sobre depressão, existência ou esperança. Apenas coloca um homem diante do mundo e pergunta silenciosamente se ainda existe algo ali que valha a permanência.

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Escrevo esse texto a pedido de minha amiga Bruna, uma pessoa doce, de extrema sensibilidade e muito bom gosto. (Algo que fica bem aparente pela potencialidade sensível do filme pedido).

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