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Do French House ao cinema — Eden, filme de Mia Hansen-Løve, o duo Daft Punk e um pedaço da história da cena musical francesa

Eden não é um filme sobre o Daft Punk, mas sobre a ressaca de uma geração que acreditou na eternidade da pista de dança.

Em meio ao cenário musical French House (também chamado de French Touch) dos confusos anos 90, temos a grande relevância de Daft Punk. Eden, filme erroneamente chamado de “filme do Daft Punk” é muito mais que essa simplicidade, é uma genealogia musical, uma jornada de amadurecimento, amadurecimento tanto cultural, quanto individual, um ensaio existencial/musical.

 

Poster Oficial - Eden (2014)

Em uma segunda feira quente de um dia de verão, mais especificamente em 22 de fevereiro de 2021, a internet foi surpreendida por uma noticia triste e inusitada: O anúncio do fim do duo Daft Punk, uma das maiores referências da música eletrônica contemporânea. O anúncio foi um tanto quanto discreto, sem muito alarde, o comunicado da separação foi dado por meio de um vídeo intitulado “Epílogo”. Em um certo momento do vídeo vemos a seguinte inscrição: (1993–2021) como se fosse uma lápide. Não foi dado um motivo concreto para tal rompimento repentino, mas isso pouco me importa, não quero aqui tratar dessa separação e seus “porquês”, vamos muito além, faremos uma jornada de amadurecimento, mas não apenas de Daft Punk, mas de toda uma cena musical que não só revolucionou a história da música eletrônica, como também é maleável e sofreu várias mudanças no decorrer do tempo, mas não foi apenas uma mudança técnica e/ou sonora, pois o que mudou não foi a música e a maneira como lidamos com ela, foi uma transformação acima de tudo, de nós, consumidores, artistas, pessoas… todos abarrotados nesse mundão confuso e mutável.

Uma transmutação musical: O French House e o Daft Punk

Ao traçarmos um apanhado da breve passagem de vertentes eletrônicas: na metade dos anos 80 tivemos o ápice da Disco Music, Italo Dance e o início da House Music; já no final de 80 e início dos anos 90 o EuroDance dominava, mas entre o inicio da década de 90 um outro gênero começou a dar as caras, era o French House (também conhecido como French Touch e Filter House). Inicialmente o movimento estourou na França, enquanto isso, o EuroDance e o Acid House ainda dominava grande parte da Europa. O French House por vezes é chamado de “Filter House” devido sua característica marcante de uso de synths e filtros, mas sem abandonar a pegada funky da Disco Music. Essa é uma vertente musical enérgica, de basslines bem pesadas e “vocais sujos”. Vários nomes surgiram pra sustentar esse som através dos tempos, mas Daft Punk foi um dos maiores destaques, inclusive, se o French music ganhou o mundo e perdura até hoje, agradeça ao Duo composto por Guy-Manuel de Homem Christo e Thomas Bengalter.

Daft Punk (Guy-Manuel de Homem Christo e Thomas Bengalter)

Em meados do inicio daqueles tempos de VHS e fitas K-7, mais especificamente o início dos anos 90, o cinema estava fervilhado de bons lançamentos como Pulp Fiction, A lista de Schindler, Assassinos por natureza, O Silêncio dos inocentes, Seven…Mas, outra coisa fervilhava na Europa, o EuroDance, que era nada mais que a House music puramente Europeia derivada do Italo House. É tipicamente dançante, de batida forte que varia entre 110 a 150 BPM e com grande apelo ao vocal feminino. Acontece que esses dois amiguinhos franceses de nomes estranhos, perceberam que poderiam influenciar uma nova cena musical usando como base o Eurodance, mas ainda assim fazer um som diferente daquilo.

Foi aí que Guy-Man e o Thomas começaram a fazer uma mistura de EuroDance com Funky americano dos anos 80, uma pegada Retrofuturista que contrastava com o futurismo puramente eletrônico e dançante do House. Eles tocavam seus remixes e gravações em festas de amigos e em festas pequenas em que eram contratados.

Foi só em 1997 que o Daft punk realmente surgiu para o mundo. O primeiro álbum do Duo intitulado como “Homework” já apresentava as bases fundamentais do que realmente é o Daft Punk, depois tivemos o “Discovery” em 2001, “Human After All” em 2005, e depois de um grande intervalo veio o último e meu favorito “Random Access Memories” de 2013. Daft punk (como diria Forrest Gump) sempre foi uma caixinha de chocolates.


Se você ainda está aqui lendo esse texto, deve estar se perguntando, mas que por#@ de Eden é esse na capa do texto e o que isso tem haver com Daft Punk?? Então continue aqui, pois ainda estamos a caminho dessa nossa viagem regada a boa música. Agora chegamos na outra parte fundamental desse nosso ensaio: O Cinema.

Daft Punk e o Cinema

Certa vez, em uma entrevista a dupla contou que o filme que mais assistiram e que mais os fascinavam era “O fantasma do paraíso”, uma ópera-rock dirigida por Brian de Palma lançada em 1974. Essa ópera-Rock que em seu lançamento foi um fracasso anos depois se tornou um clássico cult, e parte de toda a estética e de toda a mística do Daft Punk, se dá por esse filme.

Mas não, a relação deles com o cinema não é assim tão simplista, os próprios videoclipes do seu primeiro álbum “Homework” já inclui diretores renomados como Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) e Spike Jonze (Quero ser John Malkovich, Her). Mas os nossos amiguinhos Guy-man e Thomas não pararam por aí, eles já se mostraram também grandes fãs de animes, principalmente fãs do anime Akira. Foi dessa proximidade pela animação japonesa que lá em 2003 eles se juntaram com o mangaka Leiji Matsumoto e com a produção da grande Toei Animation para a realização da animação Interestella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem. É um longa animado mudo, sem diálogo, toda a história é contada através das músicas. Isso é ainda mais perceptível quando ao assistir o anime, percebemos que tanto a animação quanto o álbum musical se completam. É uma jornada melancólica e existencial que dura cerca de uma hora.
O álbum Discovery é o diálogo que falta em Interestella 5555, e Interestella 5555 é a letra que dá forma e sentido ao Discovery.

 De modo geral a história da animação pode ser resumida da seguinte maneira:

“Num planeta distante, a banda composta pelo tecladista Octave, o guitarrista Arpegius, o baterista Baryl e a baixista Stella está tocando para uma grande multidão a música One More Time. Repentinamente, o local é invadido por uma força militar do planeta Terra, raptando-os. Shep, um piloto espacial, é chamado ao serviço para fazer o resgate dos músicos. Entretanto, já na Terra, a banda está sofrendo uma manipulação de memórias e uma lavagem cerebral para tocar neste novo Planeta. O seu raptor, Earl, um agente de eventos sem escrúpulos, apresenta-os ao público como os The Crescendolls. Rapidamente começam a ganhar notoriedade e a ganhar vários prêmios. Conseguirá Shep salvá-los desta escravidão?”

 Com toda essa excentricidade e uma característica multi-inventiva única, era de se esperar que os anos 2000 fosse ótimos e produtivos para o Daft Punk, videoclipes com grande apelo sensível e visual, uma turnê mundial amplamente elogiada (Alive 2007). Ainda em 2007 rolou uma parceria com Kanye West, o resultado: O remix da música “Harder, Better, Faster, Stroger” que já em 2008 virou também parte da trilha sonora do filme “Quebrando Regras” (Never Back Down). Um ano antes, lá em 2006 o Daft Punk lançava o filme Electroma, o Duo assumiu a direção do longa. Electroma é repleto de homenagens á cultura pop, tanto que podemos ver claramente referencias ao filme Westword (1973) de Michael Crichton, THX 1138 (1971) de George Lucas e claro, o já citado O Fantasma do Paraiso.

Electroma é quase sempre descrito como “uma odisseia musical e visual”, afinal, não é pra menos já que o filme se mostra uma jornada existencial de dois robôs refletindo o seu lugar no mundo. A sinopse diz:

Uma odisseia visual e musical que acompanha a história de dois robôs na busca por se tornarem humanos. Após dirigirem pelo deserto eles chegam a uma cidade na Califórnia, na qual até os bebês são robóticos. Lá eles tentam adquirir rostos com a ajuda de cientistas, o que apenas irritará a comunidade local, causando o começo de uma odisseia final para os dois.

4 anos depois de Electroma, a dupla se envolveu em mais um projeto da indústria cinematográfica, dessa vez, um projeto de um estúdio enorme que era nada mais, nada menos que a Disney. O projeto era ambicioso, fazer um “revival” de um grande cult lançado em 1982, Tron: Uma Odisseia Eletrônica. O novo filme de 2010 traz de volta alguns personagens do longa original, agora com toda a modernidade que o CGI pode nos oferecer para a construção daquele universo eletrônico e futurista. O novo filme é Tron — O Legado, com direção de Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick). Para esse grande projeto o Daft Punk recebeu a responsabilidade de criar toda a trilha sonora original do filme, e, na minha opinião, a dupla cumpriu com maestria; pessoalmente considero até hoje esse um dos trabalhos mais poderosos do Daft Punk além de ser uma das melhores trilha sonora original da década. Para compor a trilha Guy-Manuel de Homem Christo e Thomas Bengalter olharam para o incrível trabalho feito pela Wendy Carlos no original de 1982, Wendy antes também foi a pessoa responsável pela trilha sonora de O Iluminado de Stanley Kubrick. Ela já naquela época era considerada uma visionária por empregar sintetizadores em suas obras. Tron — O Legado, em sua trilha, também presta homenagens ao trabalho de Wendy utilizando da “música digital” para transpor o ambiente tecnológico e enigmático do filme, passado de melodias com atmosféricas tristes e melancólicas ao “tuts-tuts” dançante e enérgico que acompanha cenas de mais ação. Olhando para o passado para reconstruir o novo, A dupla foi de encontro ao Synthwave (que inclusive já escrevi sobre, leia: Synthwave — De volta para o passado do futuro). 

Resenha: Eden, uma “genealogia” da French House — Do frenesi à desilusão.

Poster - Eden (2014)

EDEN, filme francês lançado em 2014 dirigido por Mia Hansen-Løve, um nome já bastante conhecido na cena indie europeia. Esse filme em questão fez muito barulho na época, pois era vendido por parte da mídia especializada como um filme do Daft Punk. Isso não é bem verdade, mas também não é uma completa mentira. Não é uma cinebiografia sobre uma dupla, mas é a cinebiografia de toda uma cena musical francesa na qual o Daft Punk foi o representante de maior impacto e relevância.

O longa abrange uma história que se desenrola por duas décadas. A narrativa se inicia em 1992 e termina em 2013. Podemos encarar isso como uma forma de mostrar o inicio de toda a French House até seu gradual esquecimento. (Que coincidentemente vai até o ano do ultimo álbum lançado pelo Daft Punk).

Paul (Félix de Givry) é um Dj iniciante, assim como a própria cena musical em que ele se insere. Vemos aqui que o personagem se transforma de acordo com as mudanças também sofridas pela cena musical, dessa forma a narrativa é conduzida pela música, que, como a vida, vai de momentos de grande euforia a melancolia em um piscar de olhos. E assim como o tempo é importante para uma música, aqui é ele quem dita a narrativa; evidenciando um aspecto realista típico do cinema francês compondo uma fatia da vida como ela é, e todo o entusiasmo do que é viver.

Logo na primeira cena do filme, vemos uma cena escura e sentimos toda a pulsação escura de uma rave parisiense, logo após isso, somos lançados para uma floresta cuja luz matinal e nevoas nos levam para um ambiente bucólico de fim de festa, o que dá a sensação de estarmos bebendo e se divertindo na festa e em um piscar de olhos acordar de ressaca em uma floresta ao nascer do sol (Quem nunca). Logo no inicio, percebemos que alguns conjuntos de fatores como a percepção de temporalidade, a música e os sentimentos serão intrínsecos aos personagens principais, e não, não estou falando do Paul, o personagem principal é a cena musical parisiense, paul, assim como nós é só um carona nessa jornada. O papel dele é ser um paralelo, quase como um antagonista.

A direção de Mia Hansen-Love é bastante contida, mas não hesitante, lembrando bastante os compassos graduais comuns do House progressivo, dos emocionantes sons da música Garage dançante e de ritmo pulsante que começou na Paradise Garage de Larry Levan em Nova York. É essa direção de caráter afetivo de Mia que nos transporta para o inicio dos anos 90 contrastado com a confusão existencial juvenil de Paul. Essa sensação confusa de não pertencimento assola qualquer jovem independentemente da sua cultura e que permeia o filme até o fim. A narrativa nos mostra esse sentimento a primeira vez com a inserção de uma namorada americana que faz um intercâmbio em paris interpretada pela incrível Greta Gerwig. Essa namorada é o pretexto que deixa claro a confusão de Paul e sua intenção de perseguir algo que é maior que ele, entrar na indústria musical e sobreviver dela, apenas dela, viver da arte. Não obstante, o fato do roteiro do filme ser escrito por Mia em parceria com seu irmão Sven Hansen-Love (um ex-Dj que viveu a cena musical retratada no longa) faz com que essa pulsão e vontade de Paul e todo seu fascínio seja transmitida de uma forma muito natural e orgânica, seja na eletricidade contagiante de uma pista de dança, ou na frustração de produzir uma faixa inacabada por que não se tinha motivações “em pó” e álcool suficientes para terminá-la.

Paul e Stan (Cheers)

Paul juntamente com seu amigo Stan criam um Duo de “Garage” chamado Cheers, mas para a frustração e felicidade de Paul e seu amigo, outros de seus dois amigos também estão criando um duo, mas não um duo de “Garage”, mas uma pegada diferente, esse duo era o Daft Punk começando com a pegada característica que marcou o primeiro albúm, chamado por muitos de “ Disco moderna”. Como visto, o Daft Punk são meros figurantes no filme, porém a presença deles é impactante, pois mesmo sendo figurantes, eles são os maiores representantes da French house, o filme simplismente os coloca em escanteio, e com razão, porque indiscutivelmente a French House é maior que Daft Punk. Acompanharemos as descobertas e frustrações de Paul, sempre à luz da cena musical e inevitavelmente, á sombra onipresente de Daft Punk.

Thomas e Guy-Man (O Daft Punk) representados no inicio de carreira

Perceptivo, compassivo, contido, enérgico…esse é Eden, um filme que não romantiza o artista e/ou sua arte, é doce e amargo como a vida deve ser. O filme levanta uma grande questão: Como fazer e/ou manter a vida que você realmente deseja viver? Agora olhando através do rompimento do Daft Punk, esse filme ganha ainda mais camadas e significação.

Assista Eden (2014) de Mia Hansen-Love. Se você é um apreciador da French House e Daft Punk, e de um belo filme, Eden é indispensável.

Trailer:


Playlist do filme:


Obs.: Todas as músicas do Daft Punk tocadas no filme, foram doadas para o filme. Os caras são fo#@s!!



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