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Máfia, Poder, a Ansiedade e os Patos: The Sopranos

Personagens de "The Sopranos" Reunidos

Há muito, muito tempo atrás, em uma terra muito, muito distante, existia uma coisa chamada televisão. E mais surpreendente de tudo: as pessoas se divertiam com aquilo. E se divertiam de verdade. Por isso, quem produzia conteúdo nela parecia que realmente queria agradar o público. Remotos tempos medievais…

Certo dia, mais precisamente algum dia do ano de 2017, estava eu sob muita pressão na faculdade e reprovando em lógica e Filosofia medieval. Procurei alguma série que fosse interessante para baixar e assistir na televisão. E eis que me deparei com “The Sopranos”, ou como ficou no Brasil “Família Soprano”. A história gira em torno do mafiosão de Nova Jersey chamado Tony Soprano (James Gandolfini), que está tendo problemas ataques de pânico e desmaios. Invejei-o, pois se eu tivesse um ataque de pânico e desmaiasse, pelo menos resolveria meu problema de falta de sono. Seu problema começou quando um grupo de filhotes de patos selvagens vem parar em sua piscina.

A perspectiva e a narrativa dos patos

Tony Soprano e os patos na piscina

Como em quase todo produto cultural estadunidense (filme ou série), a perspectiva da série é pautada no ponto de vista do personagem principal: Tony, e que também é o narrador da série. Muitas das coisas que acontecem na série, sabemos pela versão que ele mesmo narra para a psicóloga. Essa é uma questão importante para a série, pois a própria psicóloga suspeita das atividades de Tony logo de cara (“italo-americanos malditos, devem ser mafiosos”) e diz para ele que ela só não pode ouvir sobre algum tipo de crime pois ai ela teria que quebrar a ética de segredo médico-paciente e teria que reportar a polícia.

Então Tony, sempre busca atentar em sua narrativa para seus problemas pessoais, principalmente com a família, tentando evitar sobre seu “trabalho”. Então, durante o piloto da série, ele busca se ater na temática dos patinhos que vieram para sua piscina. A verdade é que Tony se apaixonou pelos bichinhos. Tacava pão para os pequenos, que comiam regozijados e habitavam em sua piscina. O trauma vem do dia em que os patinhos finalmente aprendem a voar e deixam sua piscina durante um churrasco de família.

E então bum! Tony desmaia com ataque de pânico, dizendo para psicóloga (enquanto narrador) que ele sentiu “borbulhas em sua cabeça”, sensação que eu, curiosamente, também sentia devido a minha falta de sono. 

O psicólogo da Máfia

Máfia e psicologia em The Sopranos

Mas de uma certa forma tudo fica claro no episódio quando vemos que em seu negócio, Tony media vários problemas de seus amigos do “sindicato”. Como se ele fosse, por sua vez, o psicólogo da Máfia, e durante o piloto já temos o problema. Tony não pode dizer, enquanto narrador, o teor de seus negócios, como já vimos, então resume seus negócios como cuidados do “meio - ambiente” e “tratamento do lixo”.

O primeiro problema envolve o sobrinho impulsivo de Tony, Christopher, que é o mais novato da máfia e que sonha em ser roteirista de filmes para Hollywood. Ele tem que cobrar uma dívida de um acionista do ramo de saúde. Tony acaba tendo que o ajudar, e atropela o cara da saúde com seu carro, e quebra sua perna (o que é uma ironia).

Em seguida, tem que resolver o problema seu tio, Conrado Jr.; o vanguardista da máfia que diz que toda a tradição se perdeu. Ele quer matar um opositor dentro do restaurante “Vesúvio”, que pertence a Artie Bucco, amigo de infância de Tony, que sempre recebe os membros da máfia de Tony, mesmo sua mulher detestando isso. Artie é um dos poucos amigos “neutros” e que admiram de fato Tony, chegando a dizer para sua mulher que Tony na verdade era um “líder trabalhista”. Tio Jr. matar alguém no restaurante de Artie sujaria completamente sua imagem e seu negócio que é o “point” da máfia.

Não fosse o suficiente, Tony também possui uma mãe ranzinza que vive reclamando da vida e de todos; dizendo sempre que Tony não a ama, e que o grande homem da família era seu pai que era um “santo”.

Imagens na cabeça e a Opinião Pública

A família de Tony Soprano

Curiosamente é só após vermos todas essas coisas que de fato Tony tem um ataque de pânico, sendo a partida dos patos durante o churrasco apenas a “última gota que falta para transbordar o copo”. Mas como dos demais problemas ele não pode falar com ninguém, tal evento tão pequeno e natural ganha proporções mortificantes para o protagonista.

Tony tem de lidar com as constantes reclamações das pessoas: sua mulher, seus filhos, sua mãe, seus amigos…. Que no fundo não parecem falar realmente daquilo que os estão incomodando na realidade, mas das suas próprias demandas psicológicas, ou, como disse o jornalista Walter Lippman em seu livro “Opinião Pública”, estão falando das “imagens em suas cabeças”.

Walter Lippman afirma que em pequenas e médias cidade, que passam por poucas tragédias ou mudanças sociais e que pouco mudam nos períodos entre paz e guerra, acabam tendo sua dinâmica social feita através das “imagens na cabeça das pessoas”, que nada mais seria do que os preconceitos e julgamentos mais escusos da sociedade, e que constituem aquilo que Lippman chamou de “esteriótipos”.

Capa do livro Marxismo e Filosofia da Linguagem de Bakhtin

Entretanto, nessa altura da série comecei a me indagar “se o Tony não pode falar de seus problemas de trabalho com a psicóloga e já que seus problemas pessoais são apenas detalhes familiares, para que fazer análise?”. E então lembrei de uma questão apresentada por Bahktin “Marxismo e Filosofia da Linguagem”, que diz que a “consciência individual é um fato sócio – ideológico” e sendo assim a consciência, ou melhor a psicologia que busca trabalhar o indivíduo, é, na verdade, um signo; uma semiótica. Sendo assim, ela é feita através da linguagem e da interação social do indivíduo no meio coletivo.

Tony Soprano é a encarnação perfeita da contradição entre a imagem pública e o colapso privado: um líder brutal para o mundo externo, mas um homem fragmentado tentando navegar os estereótipos e as expectativas impostas pela família, pela Máfia e pela própria sociedade moderna. A terapia deixa de ser um mero recurso narrativo para se tornar o palco onde o herói, o marginal e o vilão se confundem em busca de sentido.

Cena de abertura/atmosfera de The Sopranos

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3 Comentários

  1. Obrigado Shannon por mais um texto que emana profundidade e sensibilidade

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  2. Adorei o texto! 🥰 Profundo.

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  3. Este estava sendo aguardado, excelente como sempre, Shannon.

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