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Kavinsky - O Synthwave como representação da solitude de uma noite à luz de Neon e sintetizadores

Por um apaixonado por neon, sintetizadores e madrugadas.

Há tempos eu não escrevia um texto mais pessoal e introspectivo, e aqui quero celebrar um gênero audiovisual que me acompanha desde a adolescência. Inclusive, esse blog e todos esses textos nasceram ao som de Synthwave e algumas latas de cerveja que iam esquentando enquanto eu me empolgava com o processo criativo.

Você pode até não reconhecer o Vincent Belorgey, mas com certeza conhece o pseudônimo de uma palavra só que ele usou para mudar a história da música: Kavinsky. As notícias pipocaram nesta manhã: o músico e produtor francês de apenas 50 anos foi encontrado morto em sua casa, em Paris. A imprensa local fala em um infarto fulminante. Sem elementos suspeitos no local, a causa exata ainda está sob investigação.

Se a morte de Ozzy levou embora o último suspiro do heavy metal setentista, a partida de Vincent Belorgey acerta direto no peito do nosso próprio tempo.

Quando fui apresentado ao retrowave/Synthwave, lá por 2010, lidando com as angústias de meus 15 anos e o início do ensino médio, aquele som não soava como uma relíquia mofada do passado. Ele era o pulso vivo do presente, transvestido de um futuro que também remete a um passado não vivido, tingido com a tinta do ontem. É uma diferença sutil, mas que muda tudo. A persona criada por Kavinsky não era apenas a sobrevivente de um tempo distante; era o reflexo exato da obsessão da nossa própria época. Uma batida eletrônica empoeirada que trazia conforto a uma geração que, sem perceber, tinha começado a desacreditar do futuro.

E é aí que a dor dessa perda ganha camadas quase filosóficas. O retrowave, popularizado por Kavinsky com clássicos absolutos como "Nightcall", aliado à estética das Ferraris Testarossa, luzes de neon e pistas desertas, nasceu como uma grande homenagem aos anos 1980. Era a romantização de uma época que muitos de nós sequer vivemos. Só que os anos passaram, e aquela "brincadeira" de resgatar o passado acabou virando algo muito mais pessoal.

Caso você, leitor, queira entender melhor as origens dessa estética, confira o nosso guia completo sobre a história do Synthwave e do Retrowave.

A construção de um mito de neon e asfalto

Musicalmente, Kavinsky foi o verdadeiro patrono de um movimento gigantesco. Muito antes de virar uma instituição do synthwave, Vincent Belorgey começou a erguer sua própria mitologia no coração da cena eletrônica francesa dos anos 2000.

Em 2006, ele lançou o EP Teddy Boy e apresentou ao mundo a lendária faixa "Testarossa Autodrive". Ali nascia o seu alter ego: o jovem que sofreu um acidente fatal a bordo de uma Ferrari Testarossa em 1986 e reapareceu vinte anos depois como um zumbi produtor de eletro.

Aquele som obscuro, pesado e visceralmente cinematográfico chamou a atenção de ninguém menos que o Daft Punk, que o levou para a histórica turnê Alive 2007. Dessa proximidade surgiram frutos geniais. Em 2010, Guy-Manuel de Homem-Christo (do Daft Punk) co-produziu a atemporal "Nightcall", com a mixagem afiada de SebastiAn e os vocais hipnóticos de Lovefoxxx (do Cansei de Ser Sexy). A faixa já nasceu sendo uma obra-prima perfeita.

Faltava apenas o catalisador cultural para fazer essa bomba explodir em escala global, e ele veio no ano seguinte, em 2011, com o filme Drive. O diretor Nicolas Winding Refn transformou Los Angeles à noite em uma catedral cintilante de neon e asfalto molhado. A sequência de abertura, com "Nightcall" ecoando enquanto o motorista estoico vivido por Ryan Gosling cruza a cidade de carro vestindo sua icônica jaqueta com um escorpião estampado nas costas, selou para sempre o casamento entre o synthwave e a pilotagem noturna.

Drive deu corpo e alma ao mito que o retrowave vinha ensaiando: o piloto solitário, a máquina analógica e o isolamento meditativo ao volante.

Essa faísca incendiou a internet. A cena se multiplicou vertiginosamente com novos nomes como Lazerhawk, Mitch Murder, Gunship e Carpenter Brut. O movimento se cruzou com o vaporwave, expandindo as referências do cinema dos anos 80 para a nostalgia tecnológica do início dos anos 90, telas de tubo (CRT), interfaces antigas de computador e shoppings esquecidos pelo tempo. Quando Blade Runner 2049 chegou aos cinemas em 2017, com sua névoa alaranjada e sintetizadores graves, apenas chancelou numa escala épica essa fome retrofuturista que o underground já alimentava há anos.

O carro como refúgio e o ritual da madrugada

No fundo, a passagem do tempo provoca uma diluição histórica fascinante. À medida que as décadas se distanciam, as fronteiras rígidas entre 1984 e 1994 começam a se apagar, e a gente acaba colocando tudo na mesma prateleira afetiva. A estética analógica, a estática das fitas VHS, os monitores pesados, o som abafado das cassetes e o brilho dos painéis de cristal líquido viraram a linguagem oficial de um mundo tátil que parecia ter ficado para trás.

E o veículo perfeito para carregar todo esse ecossistema acabou sendo, literalmente, a máquina sobre quatro rodas.

A estética que Kavinsky inaugurou contagiou a cultura automotiva a ponto de definir como toda uma geração de entusiastas registrava sua paixão. As luzes de freio borradas no asfalto molhado, a iluminação fria e solitária dos postos de gasolina na madrugada, os night cruises em ritmo contemplativo embalados por esses sintetizadores... tudo isso invadiu desde franquias de games como Need for Speed Heat até vídeos independentes no YouTube. De repente, gostar de carros nos anos 2010 passou a significar viver essa atmosfera.

"Se antigamente ter um carro era a ambição de quem queria liberdade para ganhar o mundo, hoje ele representa a liberdade para fugir dele."

O carro deixou de ser um mero meio de transporte. Na era da hiperconexão e do excesso de telas, sentar no banco do motorista às duas da manhã, dar a partida no motor e colocar Kavinsky para tocar tornou-se o ritual supremo de isolamento e autocontrole. A noite virava o refúgio, e a música era o combustível dessa experiência quase meditativa entre o homem, a máquina e a estrada deserta.

Nostalgia ao quadrado

E é aqui que a régua do tempo nos acerta em cheio.

Quando o retrowave estourou lá por 2014, nós o consumíamos como uma homenagem a uma década de 1980 que a maioria de nós nem tinha vivido. Era uma nostalgia emprestada, um conceito fabuloso. Só que hoje, ao olhar para trás e escutar Kavinsky, o som já não nos conecta apenas aos anos 80: ele nos conecta a 2014.

Esse som nos conecta aos nossos próprios carros daquela época, aos rolês de madrugada com os amigos, à nossa própria juventude de dez ou doze anos atrás e a tudo o que construímos no caminho. Chegamos, afinal, à nostalgia ao quadrado: passamos a sentir saudade do tempo em que sentíamos saudade.


Uma Playlist Synthwave/Retrowave para você entrar de vez nesse mundo...

Entre nessa viagem sem destino, recheada de sintetizadores, neons e distorções. "If the doors of perception were cleansed, everything would appear to man as it is, infinite" — Boa viagem!

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1 Comentários

  1. Cara, texto incrível. Eu como fã de synthwave curti demais. E ótima playlist 🙂

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