Obs.: Parte desse texto foi escrito em 2017 e ficou esquecido por ai em uma pasta do Google Drive, recentemente reencontrei esse texto, agora com uma visão ainda mais ampla acerca da obra, publico aqui esse texto.
Heitor Dhalia em suas tomadas estáticas e sua fotografia em tons marrons e pasteis nos transportam para o “mundo de merda” do filme.
O filme foi baseado no livro de Lourenço Mutarelle. O elenco principal inclui Selton Mello como Lourenço, Paula Braun como a garçonete (de nome impronunciável), Silvia Lourenço como Sílvia, Alice Braga como Laura.
Em O Cheiro Do Ralo (2007) , Selton Melo interpreta Lourenço, um homem mesquinho ao extremo, incapaz de amar, de sentir a menor empatia por quem quer que seja (inclusive ele mesmo deixa bem claro que nunca gostou de alguém), que concebe a vida como uma transação comercial qualquer, onde é ele quem decide o que é descartável e o que se dá pra aproveitar. Seu trabalho consiste em comprar objetos usados, ele não segue nenhum tipo de critério objetivo na escolha. É ele quem estabelece o valor dos objetos , adotando como único critério seu autoritarismo sádico. O personagem em grande parte das vezes oferece quantias simbólicas por objetos valiosos e paga muito por outros sem nenhum valor. O “objeto” mais valioso, o mais difícil de comprar é a bunda, a bunda da garçonete de nome impronunciável.
O fedor do ralo entupido é uma simbologia de Lourenço, da sua personalidade , da sua postura diante da vida , da forma com que valora as coisas e comercializa as pessoas.
Esse filme é baseado em uma obra literária, mas Heitor juntamente com Marçal Aquino fizeram bastantes alterações, já que o livro é um pouco mais sombrio. Heitor diz que preferiu amenizar o tom, pois em seu filme anterior, “Nina” (2004) não foi bem recebido devido sua carga sombria carregada de terror psicológico. (Nina, ótimo filme com a Guta Stresser inspirado em Crime & Castigo de Dostoiévski). Ambos os filmes possuem um protagonista, o impacto do dinheiro e a presença do jogo de poder. Esse tom sombrio de Nina não fez o filme ser um fracasso, mas um filme muito “introspectivo” e incompreendido, hoje a obra já tem status de cult. (aaah como eu odeio esse termo).
Nina (2004)
O cheiro é do ralo, mas a grana é curta
A bunda, o olho e o cheiro do ralo:
“Eu não quero casar com essa bunda, eu quero comprar ela pra mim”.
“Isso é o que eu valho? Essa é sua fantasia?
E Lourenço responde:
Não! Essa é minha realidade.
“Esse olho vale muito, ele já viu de tudo!” Não! Não tudo, esse olho ainda não viu a bunda.”
A realidade de Lourenço é abarrotada de cinismo, tudo se resume a dinheiro (e mesmo assim não há critério sobre o que faz algo valer. Vemos ele pagar muito por coisas insignificantes e pagar um valor ínfimo para coisas que claramente são de alto valor (material e/ou sentimental)). Quando a garçonete (de nome impronunciável por conter a mescla de outros três nomes — do pai, da mãe e de um artista de novela) lhe diz que o deixaria ver a bunda de graça, o equilíbrio de Lourenço “vai para o ralo”, revelando sua verdadeira persona. Ver, tocar aquela bunda, usar aquela mulher que não tem nome e é apenas um objeto reflete a sua própria solidão. Ele chora. A solidão e o caráter podre de Lourenço é podre, o mundo de Lourenço é esse com a paleta de cores em tons de merda, fétido como o cheiro do ralo. A bunda da garçonete é quase que como uma entidade metafísica que representa o desejo em seu estado mais intenso, sátiro e imoral.
Quando se tem, não mais deseja; se ainda deseja, não o tem.
“Eu fiquei com medo de pensarem que esse cheiro vinha de mim”
“Talvez o cheiro seja meu.”







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