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O Cheiro do Ralo: desejo, fetiche e a objetificação das pessoas

 Obs.: Parte desse texto foi escrito em 2017 e ficou esquecido por ai em uma pasta do Google Drive, recentemente reencontrei esse texto, agora com uma visão ainda mais ampla acerca da obra, publico aqui esse texto.

Poster do filme O cheiro do ralo (2006)

Heitor Dhalia em suas tomadas estáticas e sua fotografia em tons marrons e pasteis nos transportam para o “mundo de merda” do filme.

Cena do filme O Cheiro do Ralo com Lourenço na loja
Uma paleta de cores de “merda”.

O filme foi baseado no livro de Lourenço Mutarelle. O elenco principal inclui Selton Mello como Lourenço, Paula Braun como a garçonete (de nome impronunciável), Silvia Lourenço como Sílvia, Alice Braga como Laura.

Em O Cheiro Do Ralo (2007) , Selton Melo interpreta Lourenço, um homem mesquinho ao extremo, incapaz de amar, de sentir a menor empatia por quem quer que seja (inclusive ele mesmo deixa bem claro que nunca gostou de alguém), que concebe a vida como uma transação comercial qualquer, onde é ele quem decide o que é descartável e o que se dá pra aproveitar. Seu trabalho consiste em comprar objetos usados, ele não segue nenhum tipo de critério objetivo na escolha. É ele quem estabelece o valor dos objetos , adotando como único critério seu autoritarismo sádico. O personagem em grande parte das vezes oferece quantias simbólicas por objetos valiosos e paga muito por outros sem nenhum valor. O “objeto” mais valioso, o mais difícil de comprar é a bunda, a bunda da garçonete de nome impronunciável.

A garçonete  sendo observada e avaliada por Lourenço
A garçonete (Paula Braun) sendo observada e avaliada por Lourenço (Selton Melo)

O fedor do ralo entupido é uma simbologia de Lourenço, da sua personalidade , da sua postura diante da vida , da forma com que valora as coisas e comercializa as pessoas.

Esse filme é baseado em uma obra literária, mas Heitor juntamente com Marçal Aquino fizeram bastantes alterações, já que o livro é um pouco mais sombrio. Heitor diz que preferiu amenizar o tom, pois em seu filme anterior, “Nina” (2004) não foi bem recebido devido sua carga sombria carregada de terror psicológico. (Nina, ótimo filme com a Guta Stresser inspirado em Crime & Castigo de Dostoiévski). Ambos os filmes possuem um protagonista, o impacto do dinheiro e a presença do jogo de poder. Esse tom sombrio de Nina não fez o filme ser um fracasso, mas um filme muito “introspectivo” e incompreendido, hoje a obra já tem status de cult. (aaah como eu odeio esse termo).

Nina (2004)

Filme Nina (2004) Posteres
Nina (2004) de Heitor Dhalia


Não conhece o filme “Nina”? Assista! É o primeiro filme do Heitor, esse filme carrega muito a sua maneira de fazer um filme, é um cara de muita identidade, aproveite e procure toda a filmografia desse excelente cineasta brasileiro que também já despontou carreira no cinema internacional. Mas vamos voltar para o texto proposto, desculpem minha atenção relapsa hahaha.

O cheiro é do ralo, mas a grana é curta

O Cheiro do Ralo quase não saiu do papel. No inicio da pré-produção o filme estava orçado em R$ 2,5 milhões, porém a premissa estranha e o desinteresse dos investidores fez com que o filme captasse quase nada, o título do filme já espantava qualquer tipo de interesse. (Esse problema de investimento é constante em todo o cinema brasileiro). O caso desse filme em específico é impressionante pois o filme era um natimorto se fosse depender da captação de recurso de investidores externos ou de programas de fomento cultural do governo, a solução para o filme nascer foi fazerem uma espécie de esquema cooperativo. O filme foi feito inteiramente com recurso do próprio bolso de seus realizadores e produtores envolvidos no projeto, além de dinheiro do próprio Selton Melo, que inclusive não recebeu nada pelo filme (ele mesmo se comprometeu a não receber para ter o máximo de recursos possíveis para o filme). Os outros atores receberam um valor simbólico, em torno de apenas 100 reais. No total, o filme foi feito com apenas 600 mil reais, metade pra filmar e metade gasto na pós-produção. E por quê contei isso tudo? Porquê essa é a realidade de boa parte do cinema brasileiro e todo esse perrengue está inerente ao plot de toda a obra, que é literalmente a valoração de coisas e pessoas.

Por trás da icônica cena da bunda em o cheiro do ralo
Por trás da icônica cena

A bunda, o olho e o cheiro do ralo:

O filme inicia com um “primeiríssimo plano”, a câmera acompanha o trajeto de uma garçonete, mas especificamente, de sua bunda, até chegar a lanchonete onde ela trabalha, e lá conhece Lourenço.

A bunda da garçonete do filme O cheiro do ralo


Nesse inicio, a bunda num shortinho com estampa havaiana ocupa toda a tela da tv, não por acaso, tal plano fechado nessa bunda, já nos apresenta a grande obsessão de Lourenço, pois nesse inicio vemos apenas a bunda, e é assim como Lourenço vê a garçonete, ela é apenas uma bunda. Ele não repara no nome, nem faz questão de pronunciar, não enxerga o seu sorriso, não presta atenção em nada a não ser a bunda. Mas ele não quer só poder olhar, ele não quer apenas ter ela pra ele, como ele diz: 
“Eu não quero casar com essa bunda, eu quero comprar ela pra mim”
Quando a garçonete tenta marcar um encontro com Lourenço, demonstrando interesse nele, ele se esquiva, pois em sua mente, ela está subvertendo a sórdida relação de poder por ele estabelecida: “Eu tinha que estar no poder, estar no comando. Ela está quebrando as regras. Eu quero pagar por essa bunda.”

A garçonete de nome impronunciável
A garçonete de nome impronunciável

Lourenço então diz a ela que pagaria pra ver, ela pergunta quanto, ele diz que paga 500 reais:
“Isso é o que eu valho? Essa é sua fantasia?

E Lourenço responde:

Não! Essa é minha realidade. 

Essa realidade de Lourenço é muito particular, uma realidade cínica, mesquinha, desequilibrada, fétida, exposta pelo cheiro do ralo, e projetada para “O olho”.

O olho de plástico foi adquirido por um alto valor, e Lourenço o valoriza como valoriza ele mesmo (e ninguém mais além dele dá a mínima) O olho é uma espécie de extensão de Lourenço, e é também ao mesmo tempo tratado por ele como uma entidade consciente e que observa tudo.
“Esse olho vale muito, ele já viu de tudo!” Não! Não tudo, esse olho ainda não viu a bunda.”
O olho

 A realidade de Lourenço é abarrotada de cinismo, tudo se resume a dinheiro (e mesmo assim não há critério sobre o que faz algo valer. Vemos ele pagar muito por coisas insignificantes e pagar um valor ínfimo para coisas que claramente são de alto valor (material e/ou sentimental)). Quando a garçonete (de nome impronunciável por conter a mescla de outros três nomes — do pai, da mãe e de um artista de novela) lhe diz que o deixaria ver a bunda de graça, o equilíbrio de Lourenço “vai para o ralo”, revelando sua verdadeira persona. Ver, tocar aquela bunda, usar aquela mulher que não tem nome e é apenas um objeto reflete a sua própria solidão. Ele chora. A solidão e o caráter podre de Lourenço é podre, o mundo de Lourenço é esse com a paleta de cores em tons de merda, fétido como o cheiro do ralo. A bunda da garçonete é quase que como uma entidade metafísica que representa o desejo em seu estado mais intenso, sátiro e imoral.

Quando se tem, não mais deseja; se ainda deseja, não o tem.

“Eu fiquei com medo de pensarem que esse cheiro vinha de mim”

“Talvez o cheiro seja meu.”

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