A substância (2024) — A beleza de um Body Horror e a catarse do grotesco

“A mudança que você precisa.” 
 Esse texto não possui spoiler. Talvez depois escreverei outro texto focado em analisar e discutir a trama do filme, esse é um texto mais amplo, bem do jeito que eu gosto de escrever. Aproveite o texto, e assista o filme (não importa a ordem).

Margaret Qualley em A Substância (2024)

É, eu estava meio sumido, ando um pouco mais ocupado que o habitual, mas prometo que sempre irei tirar um tempinho para vir para esse nosso espaço falar de filmes, filosofia e tudo mais… Mas vamos lá. Primeiro de tudo vamos falar sobre o subgênero em que “A substância” está inserido.

Body Horror

Body Horror, um subgênero do terror

O Body Horror, explicando de maneira geral é um subgênero do terror que foca em mutilações e transformações extremas e grotescas do corpo humano. O termo foi introduzido pelo crítico Phillip Brophy em 1983 e ganhou destaque com filmes que exploram o corpo de formas impactantes e perturbadoras. Sempre que ouvimos falar de Body horror, um filme em específico vem à mente: A Mosca (The Fly, 1986) — Dirigido por David Cronenberg. O “terror” presente nesse “terror corporal” é proveniente da dor corporal e da completa ou parcial desconfiguração física. Em “A Mosca”, por exemplo, o protagonista sofre uma metamorfose horripilante, onde se transforma de maneira angustiante em uma mosca. Filmes Body Horror têm suas narrativas construídas para provocar uma sensação de desconforto visceral diante do que é visto em tela.

eXistenZ (2000) Um ótimo exemplo de Body Horror
eXistenZ (2000) Um ótimo exemplo de Body Horror

Entre operações improvisadas e mudanças corporais drásticas, cientistas loucos e sinistros cirurgiões, veja a lista de alguns Body Horror’s marcantes: Entre os clássicos temos A Mosca (1986), Videodrome (1983), Enraivecida na Fúria do Sexo (1977), O Enigma de Outro Mundo (1982), Eraserhead (1977). E obras mais recentes: Possessor (2020), Terror no Estúdio 666 (2022), Raw (2016), Titane (2021), Antiviral (2012), Crash — Estranhos Prazeres (1996), Crimes do Futuro (2022), eXistenZ (1999)

Reality+ — um prelúdio de “The Substance”

Filme Reality+
Poster de Reality+


Vivemos em uma sociedade “Instagramável”, sedentos por uma perfeição estética cada vez mais absurdamente inalcançável. Rolamos o feed do Instagram por horas e horas, abarrotado de pessoas bonitas, exibindo corpos e comidas coloridas como em uma feira artificial de alguma obra cyberpunk qualquer, tudo ordenado e ditado por algoritmos (eu mesmo estou escrevendo esse texto ouvindo uma música que o algoritmo do spotify escolheu, baseado é claro no meu gosto, “naturalmente”, ou o faz parecer ser). O que estou querendo dizer aqui é que estamos vivendo em um mundo cada vez mais artificial, afinal, estamos em 2026, esse é o futuro (mas sem carros voadores) — (Maldito Marty Mcfly).

Lá em 2014, exatos 10 anos antes de “A Substância” Coralie Fargeat produziu um curta-metragem onde Vincent, um jovem parisiense inseguro com sua aparência, instala o chip Reality+, que permite aos usuários verem a si mesmos e aos outros usuários com o corpo dos sonhos. Porém, o chip só funciona em intervalos de 12 horas, o que frustra Vincent quando ele se apaixona por Stella, outra usuária. O que vemos em “A substância”, agora um longa-metragem é o amadurecimento dessa ideia vista em Reality+, de uma sociedade obcecada por imagens, juventude e perfeição estética.

A substância (2024) e o ápice do Body Horror moderno

Poster oficial de A Substância (2024)

Sinopse: Elizabeth Sparkle é uma grande atriz cuja idade a relegou a um programa fitness na TV. Ao ser demitida, ela recebe a oferta de um teste do tratamento médico que promete uma versão melhor e mais jovem de si mesma através de um processo de replicação celular.

Cenas de A Substância (2024)


“Já sonhou com uma versão melhor de si mesmo?!”

Ser belo e “eternamente jovem” é a melhor versão que alguém pode ter? Ou é apenas “parecer ser”. Existe uma diferença grande entre ser e parecer, e é exatamente isso que vemos no filme com toda sua sutileza grotesca e ao mesmo tempo bela, colorida e simétrica (se é que isso é possível dado o teor contrario desses elementos).

Essa obsessão pelo tempo e pelo belo é algo bem batido, vemos isso em várias outras obras como O Retrato de Dorian Gray (Uma adaptação da obra de Oscar Wilde, refletindo sobre a obsessão com a aparência eterna.) Neon Demon (2016) (Uma crítica à obsessão com a beleza na indústria da moda e suas consequências sombrias, bem como uma crítica à própria Hollywood). A Pele Que Habito (2011) (Investiga os limites éticos e emocionais da busca pela perfeição física.)….

A substância é um filme que bebe dessas fontes, recheado de referencias e rimas visuais que vão desde O Iluminado (1980) a Psicose (1960). E mesmo bebendo de todas essa referencias, mesmo que explicitamente, Coralie Fargeat constantemente está provocando a ideia de percepção que temos sobre a trama, manipulando os nossos sentidos com ângulos de câmera inventivos e cores intensas em um suspense que nos acompanha até a ultima parte do filme, sendo substituído por um exagero grotesco que faz qualquer fanático por filmes B trash se levantar batendo palmas.

Poster oficial do filme A Substância (2024)


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