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Em defesa da 6º temporada de Black Mirror

Seria essa temporada menos Black Mirror?

Black Mirror é uma série britânica que estreou em 2011 e se tornou um sucesso mundial. Criada por Charlie Brooker, a série explora as consequências da tecnologia na sociedade e como ela pode afetar nossas vidas de maneiras imprevisíveis. Em cada episódio, a série apresenta uma história independente que nos faz refletir sobre a tecnologia e sociedade.


De modo geral, um dos temas mais recorrentes em Black Mirror é a dependência da tecnologia e como ela pode afetar nossas vidas. Em episódios de temporadas passadas como “Nosedive” e “Arkangel”, vemos como a necessidade de estar conectado o tempo todo pode levar a consequências desastrosas. A série nos faz refletir sobre como estamos cada vez mais dependentes da tecnologia e como isso pode nos tornar mais vulneráveis a ataques de hackers e outros tipos de violações de privacidade. Além disso, a dependência da tecnologia pode nos impedir de desenvolver habilidades sociais importantes, como a capacidade de se comunicar e interagir com outras pessoas face a face.

Outro tema importante em Black Mirror é a privacidade e como ela pode ser facilmente violada pela tecnologia. Em episódios como “The National Anthem” e “Shut Up and Dance”, vemos como a privacidade pode ser usada como moeda de troca em um mundo cada vez mais conectado. A série nos faz refletir sobre como nossas informações pessoais estão sendo coletadas e usadas por empresas e governos sem que muitas vezes saibamos. Além disso, a falta de privacidade pode nos fazer sentir constantemente vigiados e sem liberdade para agir de acordo com nossas vontades e desejos. Black Mirror também aborda a busca pela perfeição e como ela pode nos levar a situações extremas. Em episódios como “USS Callister” e “San Junipero”, vemos como a tecnologia pode ser usada para criar uma realidade alternativa onde tudo é perfeito. A série nos faz refletir sobre como a busca pela perfeição pode ser perigosa e nos impedir de apreciar a vida como ela é.

A série também aborda a questão da inteligência artificial e seu potencial para substituir a humanidade. Em episódios como “Be Right Back” e “White Christmas”, vemos como a tecnologia pode ser usada para criar cópias digitais de nós mesmos, que se assemelham aos humanos em muitos aspectos. A série nos faz refletir sobre as implicações éticas e morais desse tipo de tecnologia e como ela pode afetar nossa percepção de identidade e humanidade.

Outro tema importante em Black Mirror é a manipulação da informação e a disseminação de notícias falsas. Em episódios como “Hated in the Nation” e “The Waldo Moment”, vemos como a tecnologia pode ser usada para manipular a opinião pública e criar uma narrativa falsa sobre eventos e pessoas. A série nos faz refletir sobre o papel da tecnologia na era das fake news e como é importante desenvolvermos habilidades críticas para avaliar a veracidade das informações que recebemos.


Olhando pra tudo o que já vimos ser apresentado na série, a sensação que dá é que não há nada novo a ser abordado, pois parece que já vimos um pouquinho de tudo desse lado “sombrio da tecnologia”. Charlie Brooker diz que a série nunca foi exatamente sobre a tecnologia ser algo prejudicial, mas sim ter um uso errado por parte do ser humano. Ele afirma:
“Eu estava super ciente… havia um certo perigo porque as pessoas estavam chamando a série de ‘o programa sobre a tecnologia ser ruim’ e eu achei isso meio frustrante, parte disso porque eu sempre pensei que a série não diz que tecnologia é ruim, a série diz que as pessoas são problemáticas”
Episódio Joan is Awful

 Na entrevista, o produtor ressalta que alguns episódios ainda fazem sátira e comentários ácidos sobre a imprensa e o mundo do entretenimento. Esse é o caso de “Joan is Awful”, que abre a 6° temporada e brinca com a própria ideia de ver uma série no streaming, e “Loch Henry”, que trata do fenômeno do gênero true crime, que inclusive, mesmo não focando na tecnologia, mas no suspense, ainda é “muito Black mirror” já que o plot é de “desgraçar a cabeça. “Beyond the Sea” é um episódio “mais Black Mirror” da temporada, aqui temos o pacote completo, uma versão alternativa de uma 1969 tecnologicamente á frente de seu tempo, com uma tecnologia criativa e futurista, personagens mentalmente instáveis e um clima tenso e melancólico, reviravoltas e um final de desgraçar a cabeça e quando sobe os créditos você fala: “que p*#rr@ é essa brother!?” (é black mirror, baby!)


Até aqui tudo bem, nada de tão diferente nessa temporada não é mesmo? Pois é, mas é no episódio “Mazey Day” que as coisas tomam um rumo inesperado. Esse é o episódio 4 dessa temporada e aqui temos um elemento pouco ou quase nunca explorado na série até então, o sobrenatural e o horror gore, e isso é tão fora da casinha que mais parece um episódio de “Além da imaginação” ou outras séries desse seguimento, mas vemos aqui uma narrativa ácida com elementos que lembram “Um Lobisomem Americano em Londres” um clásico do cinema oitentista. O tema principal do episódio é a vida pública de celebridades e os paparazzi, não darei spoilers, porém mesmo se entregando de cabeça ao terror sobrenatural, temos aqui um dos episódios mais ácidos dessa temporada, marcado por críticas sutis acerca dos limites da exposição da imagem em uma narrativa que diz muito nas suas entrelinhas, esse é um episodio que até mereceria um texto só pra ele.

Episódio Mazey Day


Mas a cereja do bolo, o episódio que mais sofreu crítica da galera (além de mazey day) foi o último episódio da temporada, “Demônio 79”. Já nos primeiros minutos já vemos uma tarja escrito “Red Mirror”, algo até então inédito na série, o que levou a especulação. Será esse é um ep fora do “universo Black Mirror? Seria Red Mirror uma nova série voltada para o terror? Não se sabe, só sabemos que com isso se abre as portas para o horror sobrenatural; sobre isso, Charlie Brooker comentou:

Eu sempre senti que ‘Black Mirror’ deveria apresentar histórias totalmente distintas umas das outras e manter pessoas surpreendentes — e eu — ou então qual é o objetivo?”

 A trama de Demônio 79 se passa nos anos 70 e um dos assuntos tratados (além do sobrenatural) é a xenofobia. O título “Demônio 79” já nos indica que o enredo gira em torno de um demônio que aparece na vida da protagonista em um momento de desespero, quando ela adquire um objeto amaldiçoado no porão de seu local de trabalho. Esse demônio adota a forma de um cantor humano (interpretado por Paapa Essiedu) e revela a situação à protagonista, explicando que ela precisa realizar um ritual de sacrifício envolvendo três pessoas inocentes (não tão inocentes assim)para evitar o fim do mundo até o dia 1º de maio. No entanto, mais uma vez, o episódio de “Black Mirror” nos surpreende com um desfecho eletrizante que foge às nossas expectativas habituais.

Acredito que uma das coisas que mais contribuiu para o “hate” nesse episódio e na temporada seja o fato desse episódio ser estritamente horror sobrenatural, ignorando completamente a peça chave de Black Mirror, a tecnologia. Esse episódio é ainda mais problemático nesse sentido, pois se considerarmos o ep anterior, Mazey Day, é sim voltado para o sobrenatural, mas dá pra encará-lo como uma alegoria, já Demônio 79 é um conto de terror que se leva a sério nesse gênero que ele se insere.

Portanto, eu vejo o hate nessa temporada como algo descabido, pois ainda temos contos que respiram a essência Black Mirror, mas existe sim espaço para o novo e diferente. O mundo já está mais chocante que a série. Já não estamos em 2011, muita coisa mudou de lá pra cá, inclusive Black Mirror.

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