Seria essa temporada menos Black Mirror?
“Eu estava super ciente… havia um certo perigo porque as pessoas estavam chamando a série de ‘o programa sobre a tecnologia ser ruim’ e eu achei isso meio frustrante, parte disso porque eu sempre pensei que a série não diz que tecnologia é ruim, a série diz que as pessoas são problemáticas”
Na entrevista, o produtor ressalta que alguns episódios ainda fazem sátira e comentários ácidos sobre a imprensa e o mundo do entretenimento. Esse é o caso de “Joan is Awful”, que abre a 6° temporada e brinca com a própria ideia de ver uma série no streaming, e “Loch Henry”, que trata do fenômeno do gênero true crime, que inclusive, mesmo não focando na tecnologia, mas no suspense, ainda é “muito Black mirror” já que o plot é de “desgraçar a cabeça. “Beyond the Sea” é um episódio “mais Black Mirror” da temporada, aqui temos o pacote completo, uma versão alternativa de uma 1969 tecnologicamente á frente de seu tempo, com uma tecnologia criativa e futurista, personagens mentalmente instáveis e um clima tenso e melancólico, reviravoltas e um final de desgraçar a cabeça e quando sobe os créditos você fala: “que p*#rr@ é essa brother!?” (é black mirror, baby!)
Até aqui tudo bem, nada de tão diferente nessa temporada não é mesmo? Pois é, mas é no episódio “Mazey Day” que as coisas tomam um rumo inesperado. Esse é o episódio 4 dessa temporada e aqui temos um elemento pouco ou quase nunca explorado na série até então, o sobrenatural e o horror gore, e isso é tão fora da casinha que mais parece um episódio de “Além da imaginação” ou outras séries desse seguimento, mas vemos aqui uma narrativa ácida com elementos que lembram “Um Lobisomem Americano em Londres” um clásico do cinema oitentista. O tema principal do episódio é a vida pública de celebridades e os paparazzi, não darei spoilers, porém mesmo se entregando de cabeça ao terror sobrenatural, temos aqui um dos episódios mais ácidos dessa temporada, marcado por críticas sutis acerca dos limites da exposição da imagem em uma narrativa que diz muito nas suas entrelinhas, esse é um episodio que até mereceria um texto só pra ele.
Mas a cereja do bolo, o episódio que mais sofreu crítica da galera (além de mazey day) foi o último episódio da temporada, “Demônio 79”. Já nos primeiros minutos já vemos uma tarja escrito “Red Mirror”, algo até então inédito na série, o que levou a especulação. Será esse é um ep fora do “universo Black Mirror? Seria Red Mirror uma nova série voltada para o terror? Não se sabe, só sabemos que com isso se abre as portas para o horror sobrenatural; sobre isso, Charlie Brooker comentou:
Eu sempre senti que ‘Black Mirror’ deveria apresentar histórias totalmente distintas umas das outras e manter pessoas surpreendentes — e eu — ou então qual é o objetivo?”
A trama de Demônio 79 se passa nos anos 70 e um dos assuntos tratados (além do sobrenatural) é a xenofobia. O título “Demônio 79” já nos indica que o enredo gira em torno de um demônio que aparece na vida da protagonista em um momento de desespero, quando ela adquire um objeto amaldiçoado no porão de seu local de trabalho. Esse demônio adota a forma de um cantor humano (interpretado por Paapa Essiedu) e revela a situação à protagonista, explicando que ela precisa realizar um ritual de sacrifício envolvendo três pessoas inocentes (não tão inocentes assim)para evitar o fim do mundo até o dia 1º de maio. No entanto, mais uma vez, o episódio de “Black Mirror” nos surpreende com um desfecho eletrizante que foge às nossas expectativas habituais.
Acredito que uma das coisas que mais contribuiu para o “hate” nesse episódio e na temporada seja o fato desse episódio ser estritamente horror sobrenatural, ignorando completamente a peça chave de Black Mirror, a tecnologia. Esse episódio é ainda mais problemático nesse sentido, pois se considerarmos o ep anterior, Mazey Day, é sim voltado para o sobrenatural, mas dá pra encará-lo como uma alegoria, já Demônio 79 é um conto de terror que se leva a sério nesse gênero que ele se insere.
Portanto, eu vejo o hate nessa temporada como algo descabido, pois ainda temos contos que respiram a essência Black Mirror, mas existe sim espaço para o novo e diferente. O mundo já está mais chocante que a série. Já não estamos em 2011, muita coisa mudou de lá pra cá, inclusive Black Mirror.







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