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Depois de horas (1985) — Uma noite frenética permeada de uma surreal estranheza tragicômica com toques Kafkianos

 “A noite outra bebida, Não me resta outra saída. A noite pede mais um. A noite pede calma, Rouba vida, tira a alma. A noite pede mais um. Perde a cabeça, perdeu a razão. De dia outra chance, uma satisfação”… (A noite — Nominalistas).

O filme narra a história de Paul Hackett (Griffin Dunne), um operador de computador que trabalha no centro de Manhattan e odeia seu trabalho, assim como sua solitária vida pessoal. Certo dia, cansado de ficar sozinho em casa, ele decide ir a um restaurante para ler um livro. Lá, uma loira encantadora, que estava em outra mesa, inicia uma conversa com ele, elogiando o livro que ele está lendo. Logo, os dois começam a conversar animadamente e descobrem que têm alguns interesses em comum. A loira diz que está indo para a casa de uma amiga escultora em Soho, que vende pesos para papel, e pergunta se Paul quer comprar. Embora não tenha interesse no objeto, Paul quer continuar conversando com a jovem, então diz que está interessado.


A jovem não sabe o preço, então dá o telefone da escultora Kiki Bridges (Linda Fiorentino) para que Paul possa obter mais informações. Quando Paul chega em casa, ele liga para Kiki e finge estar interessado nos pesos para papel. Kiki diz que a jovem se chama Marcy e sugere que Paul a encontre no apartamento em Soho. Ele concorda e, assim, começa uma noite conturbada.


Os problemas começam quando Paul perde sua única nota de vinte dólares pela janela do táxi. As ruas do Soho estão escuras e desertas, o que não é um bom presságio. Marcy está hospedada na casa de Kiki, que é uma escultora com gostos sexuais excêntricos e uma conversa estranha, e de uma crescente tensão sexual.


No quarto de Marcy, Paul tem uma conversa breve de primeiro encontro e ela sugere que terão grandes momentos juntos. No entanto, tudo começa a dar errado e uma série de eventos infernizam a noite de Paul. Ele é perseguido por uma gangue que o confunde com um criminoso, enquanto a maré de azar continua a crescer. Daí pra frente, é só pra trás.


Falar dos filmes de Martin Scorsese é sempre gratificante, e quando ele se dispõe em nos levar a uma jornada alucinante em uma noite recheada de acasos e desencontros com personagens histéricos, temos que parar pra assistir. Martin Scorsese transforma uma convenção problemática da comédia dos anos 80 — a tendência de reagir de forma insuficiente a situações cada vez mais bizarras e ameaçadoras — em uma farsa metafísica inteligente e engraçada. (nas devidas proporções cuja a graça está de mãos dadas com o clima soturno e tenso de grande desconforto). A habilidade de Scorsese em desenvolver temas, estrutura narrativa e estilo visual é impressionante e faz deste filme de 1985 um exemplo do seu talento como cineasta.


Franz Kafka é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos, apesar de ter publicado pouco durante sua vida. Sua importância é enorme e sua influência ultrapassa os séculos. De fato, foi a partir de seu nome que surgiu a palavra “kafkiano”, capaz de transmitir o mundo sombrio que permeia seus livros. O termo kafkiano evoca a atmosfera assustadora, real e sufocante que todos nós em algum momento da vida atravessamos, quando nos sentimos frágeis diante de poderosos políticos, juízes, burocratas e familiares autoritários ou quando nos vemos desorientados e desamparados em situações que não controlamos e que causam dor e confusão. É notável como uma única palavra, nesse caso o termo “kafkiano” é capaz de deixar um vestígio tão significativo. Já se sentiu sozinho e continuamente impedido de avançar na vida? Este é um momento kafkiano, característico da obra do autor que se faz presente em nossas vidas reais e nas narrativas que criamos para compreender o mundo. Sua influência é vista no cinema, em séries de televisão, na música, nas artes plásticas e nos videogames, transcendendo as histórias que escreveu. Kafka teve muitos de seus livros adaptados para o cinema e sua obra continua inspirando novas criações artísticas. Em “Depois de Horas” temos toda a atmosfera e a reflexão “Kafkiana”.

O personagem principal é Paul Hackett, um empregado de escritório bem comum. A primeira semelhança já está aqui: durante a sua vida, Kafka trabalhou em uma companhia de seguros, cercado por papéis e lidando com processos burocráticos massacrantes. Esse é também o universo dos seus personagens, em especial de Josef K., do livro “O Processo”, que é acusado de cometer um crime e fica perdido num labirinto distópico onde nada é explicado de forma clara. Hackett, depois de horas, se vê envolvido em uma série de fatos surreais e não consegue saber o porquê das coisas que estão acontecendo, assim como Josef K. O livro e o filme chegam a dividir uma cena parecida: O filme, inclusive, usa uma frase do “Processo” — no livro, o personagem é um porteiro que impede o homem do campo de atravessar a porta da lei. Só que esse tal porteiro, no filme é o brutamontes que tenta te impedir de entrar na boate, mas recebe todos os subornos, a Fala presente no livro O processo, é repetida nessa cena do brutamontes no filme:

“Vou aceitar seu dinheiro, porque não quero que sinta que deixou de tentar algo.”

 Esse é o filme mais diferente e estranho de toda a filmografia de Scorsese, estranho não de uma forma ruim, muito pelo contrário, é ótimo, é como sair da zona de conforto. E quem nunca teve uma noite angustiante e louca sem saber como voltar pra casa, não é?! (Isso me lembra de um rolê pela rua Augusta uns anos atrás, mas assim como nosso protagonista, acho melhor não comentar).

Até breve…

aliás, nada de bom acontece depois das duas da manhã!




 

 

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