“Em Cena” é uma série de textos que escrevo aqui no blog, textos breves em que me dou ao trabalho de esmiuçar detalhadamente uma única cena, ou algumas poucas cenas, mas sempre tentando me ater ao minimalismo e ao essencial.
Para este novo texto da série "Em Cena", escolhi Blade Runner 2049 (2017), continuação tardia de um clássico absoluto da ficção científica, dirigida pelo excelente Denis Villeneuve e estrelada por Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Jared Leto e Dave Bautista.
Filme belo, melancólico, enevoado, pessimista, existencial… mas acima de tudo um filme sobre aquilo que resta de humano em um mundo dominado por cópias, projeções, implantes, memórias artificiais e afetos programados. E é justamente por isso que a cena que iremos analisar aqui é uma das mais dolorosas de todo o longa.
A cena em questão acontece quando K, já em frangalhos, atravessa a cidade e se depara com a gigantesca projeção publicitária de Joi. Não é uma cena de violência física como a do elevador em Drive, mas é uma cena de violência ontológica, de esmagamento íntimo, de aniquilação silenciosa. É o momento em que uma ilusão afetiva desmorona diante de seus olhos.
Até aquele ponto do filme, Joi ocupa um lugar curioso. Ela é, ao mesmo tempo, companhia, doçura, acolhimento, promessa de intimidade e produto tecnológico. Ela parece dar a K algo que o mundo inteiro lhe nega: reconhecimento. Um olhar. Uma presença. Um tipo de calor em meio à frieza metálica daquele universo.
Mas existe aí um detalhe fundamental: K não ama apenas Joi. K ama a possibilidade de ser visto por ela. Ama a sensação de ser, ainda que por alguns momentos, algo além de uma peça substituível. E essa é a chave de tudo.
Quando a enorme holografia surge diante dele, de forma quase fantasmagórica, iluminando a noite com seu corpo artificialmente perfeito, algo se rompe. Aquilo que antes parecia íntimo, singular, pessoal, revela-se agora replicável, padronizado, industrial. A voz macia, o flerte delicado, a ternura cuidadosamente programada, tudo reaparece ali em escala monumental, não como amor, mas como serviço. Não como relação, mas como publicidade.
É nesse instante que Blade Runner 2049 revela uma de suas ideias mais cruéis: aquilo que consola também pode ter sido fabricado desde o início para consolar. O afeto aqui não desaparece, ele apenas já nasce contaminado pela lógica do mercado. O carinho torna-se interface. A intimidade torna-se design. O amor torna-se produto.
E o mais trágico é que Joi, antes percebida por K como exceção, como singularidade, agora mostra sua verdadeira natureza: ela não era dele, nunca foi, ela podia ser de qualquer um. É mais um produto de consumo produzido em massa.
Assim como no texto de Drive, existe aqui um instante de revelação essencial. Lá, no elevador, a verdadeira natureza do protagonista se manifesta na explosão brutal de violência. Aqui, em Blade Runner 2049, a verdade se manifesta de outra forma: pela desproporção humilhante entre um homem pequeno e ferido e uma imagem colossal, sedutora e indiferente.
K para. Olha. Escuta. E entende.
Entende que talvez até mesmo o amor que ele acreditava viver já viesse embalado, pronto, programado, vendido em catálogo. Entende que a promessa de singularidade talvez fosse apenas mais uma função do sistema. Entende que até a fantasia de ser especial pode ser produzida em massa.
E isso dói porque K também é um produto.
Talvez seja justamente por isso que a cena seja tão devastadora. Não é apenas uma propaganda que surge diante dele. É um espelho distorcido, uma confirmação cruel. Joi, naquela forma gigantesca, parece dizer silenciosamente que não há transcendência alguma ali, apenas repetição, mercado, algoritmo e performance afetiva. O que parecia escapar à lógica consumista do mundo era, na verdade, apenas uma extensão dela.
Mas existe algo ainda mais triste nisso tudo: mesmo que Joi fosse mercadoria, mesmo que sua ternura fosse programada, a dor de K continua sendo real, ou seja, o simulacro não impede o sofrimento. Essa talvez seja uma das ideias mais fortes de Blade Runner 2049. O artificial não cancela a experiência. O falso não impede a cicatriz. Mesmo em um mundo composto por cópias, hologramas, anúncios e memórias implantadas, a dor continua sendo autenticamente sentida.
Por isso essa cena é tão importante para o filme. Porque é nela que o longa desmascara não apenas Joi, mas também o próprio desejo de K. O que ele queria não era apenas amar, mas ser reconhecido como único. E quando a propaganda aparece, mostrando que aquela voz, aquele gesto, aquele olhar pertencem à prateleira do consumo, desaba também a esperança de sua própria unicidade.
A cidade continua imensa, luminosa, impessoal. K continua pequeno. E a imagem de Joi, agora transformada em pura mercadoria, paira sobre ele como um monumento.
Não é só uma holografia.
É a ruína de uma ilusão.
É o instante em que o amor deixa de parecer amor e revela sua condição de produto.
É o momento em que K percebe que até sua carência mais profunda já havia sido prevista pelo sistema.
E talvez seja justamente por isso que essa seja uma das cenas mais melancólicas da ficção científica da atualidade; porque ela não fala apenas de replicantes, inteligências artificiais ou futuros distópicos, ela fala de nós e da nossa solidão mediada por telas, da facilidade com que confundimos acolhimento com customização e presença com interface.
No fim das contas, K encara aquela Joi colossal como quem encara o cadáver luminoso de uma esperança. E o filme, nesse momento, alcança algo raro: ele transforma uma cena silenciosa em uma espécie de alegoria da subjetividade contemporânea.
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1 Comentários
Gostei muito principalmente da conclusão final.
ResponderExcluirEssa cena dói porque não quebra só a ilusão da Joi, quebra o K também.
Ele percebe que até o ‘amor’ já vinha pronto, como produto.
E o pior é que, mesmo sendo artificial, o sentimento dele é real.
A dor continua ali.