O medo do amor em tempos de excesso
Houve um tempo em que o amor parecia impossível porque o mundo o cercava por todos os lados. Havia normas, famílias, moralismos, uma arquitetura inteira de contenção erguida para vigiar afetos, escolher destinos, delimitar gestos. Amar, então, era muitas vezes insurgir-se. Era desejar apesar de tudo. Era sofrer porque o sentimento esbarrava numa sociedade que ainda acreditava poder controlar o coração por meio da etiqueta, do sobrenome, da religião, da aparência e da conveniência. Talvez por isso a dor amorosa de outros séculos tenha produzido tanto fascínio: porque nela havia também uma grandeza trágica. O amor era interditado, e justamente por isso parecia absoluto.
Hoje, à primeira vista, o cenário é outro. Pode-se amar quem se quiser, ou quase isso. Pode-se falar de desejo com mais liberdade, pode-se experimentar, romper, recomeçar. Mas essa liberdade, que deveria nos aproximar de uma vivência mais plena dos vínculos, parece ter produzido também uma nova forma de angústia. Já não sofremos apenas porque não podemos amar. Sofremos porque não sabemos permanecer.
É como se, retiradas muitas das antigas proibições, restasse diante de nós uma outra força, mais difusa e talvez mais difícil de nomear: o medo. Não o medo do escândalo social, não o medo da reprovação pública, mas o medo do envolvimento em si. O medo de criar laços, de depender emocionalmente, de se tornar legível para o outro. Amar, agora, não é apenas desejar alguém; é aceitar o risco de ser ferido num mundo que nos ensinou a administrar a nós mesmos como se fôssemos empresas, perfis, vitrines ou marcas pessoais. E numa lógica assim, qualquer entrega parece ameaça.
Talvez seja por isso que tanta gente prefira o jogo à profundidade. O flerte sem densidade, a conversa que nunca chega ao centro, a presença provisória, a ironia constante como mecanismo de defesa. Vive-se entre aproximações calculadas. Deseja-se, mas sem prometer. Quer-se companhia, mas não continuidade. Busca-se intensidade, mas sem consequência. Como se o ideal contemporâneo fosse sentir tudo sem ser atravessado por nada. Como se o amor precisasse caber dentro de uma margem segura, sem perturbar demais, sem exigir demais, sem durar o suficiente para revelar nossas faltas.
Mas o amor real, quando existe, é exatamente o contrário dessa assepsia emocional. Ele desorganiza. Ele desloca. Ele exige renúncias pequenas e grandes. Exige tempo, escuta, vulnerabilidade, paciência. E talvez seja isso o que mais incomoda numa época acostumada à velocidade, ao descarte e à substituição permanente. Estamos cercados por uma cultura que promete reposição infinita: se uma conversa falha, outra aparece; se um vínculo pesa, corta-se; se o outro frustra, desliza-se para o próximo. O problema é que essa abundância de possibilidades não produz necessariamente liberdade interior. Muitas vezes produz apenas superficialidade e cansaço.
No fundo, talvez estejamos menos libertos do que imaginamos. Apenas trocamos um tipo de prisão por outro. Antes, o amor era comprimido por convenções externas. Agora, ele é corroído por bloqueios internos, pelo narcisismo defensivo, pela incapacidade de sustentar frustrações mínimas, pela fantasia de que todo vínculo deve ser leve, perfeito e imediatamente satisfatório. Não suportamos mais o peso do tempo sobre os afetos. Queremos conexão, mas recuamos diante da intimidade. Queremos ser amados, mas tememos ser conhecidos de verdade.
Há nisso uma tristeza muito particular do presente. Porque, diferentemente do amante romântico de outros séculos, que sofria por encontrar o mundo contra si, o sujeito contemporâneo muitas vezes sofre diante de um mundo aberto demais, rápido demais, disponível demais — e, ainda assim, incapaz de lhe oferecer repouso. Não é a escassez de possibilidades que o condena, mas o excesso delas. Não é o rigor da norma que o paralisa, mas a vertigem de poder escolher sempre outra coisa, outro alguém, outro começo. E nessa sucessão de alternativas, o amor deixa de ser morada para se transformar em experiência provisória.
Closer, o amor e a incapacidade de permanecer
Talvez por isso Closer: Perto Demais (2004), de Mike Nichols, seja um filme que conversa tão bem com essa inquietação. Em seus personagens, o amor já não esbarra em convenções sociais intransponíveis, mas em algo talvez mais difícil de enfrentar: a incapacidade de permanecer. É um filme sobre pessoas que podem escolher, circular, trocar, experimentar, recomeçar. Não há ali uma força moral externa esmagando o desejo. E, ainda assim, quase ninguém consegue amar sem ferir, sem manipular, sem fugir, sem transformar o vínculo em jogo de poder.
É justamente aí que o filme toca o nervo do nosso tempo. Porque em Closer, todos querem ser vistos, desejados, escolhidos. Mas quase ninguém parece preparado para a vulnerabilidade que isso exige. O amor deixa de ser abrigo e passa a funcionar como campo de batalha. O outro não aparece como encontro pleno, mas como ameaça, espelho cruel, prova constante de insuficiência. E assim o afeto vai sendo corroído não por proibições externas, mas por uma espécie de imaturidade emocional sofisticada, muito própria de uma era que celebra a liberdade, mas teme a entrega.
Há algo profundamente contemporâneo em Closer porque o filme desmonta a fantasia de que a liberdade afetiva resolveria tudo. Não resolve. Talvez revele, com ainda mais nitidez, a desordem interior dos sujeitos. O que destrói aquelas relações não é a falta de escolha, mas o excesso dela; não é a repressão moral, mas a dificuldade de lidar com a verdade do desejo, com a frustração, com a permanência. Cada personagem parece preso à própria vaidade, à própria dor, à necessidade de manter algum controle sobre o outro. E onde há controle demais, o amor sufoca.
Também por isso Closer é um filme cruel. Ele não idealiza o amor, não oferece redenção confortável, nem acredita muito nessa fantasia de que sentir intensamente basta. O que ele mostra é que sentir não é o mesmo que saber amar. E talvez essa seja uma das tragédias modernas: confundir intensidade com profundidade, desejo com vínculo, atração com entrega. O resultado é um conjunto de relações que queimam rápido, ferem muito e quase nunca encontram repouso.
No fim, o medo do amor talvez revele menos uma recusa ao outro do que uma dificuldade de lidar com aquilo que o outro desperta em nós. Porque amar continua sendo perder o controle, e o sujeito contemporâneo foi educado justamente para controlá-lo tudo: o corpo, o tempo, a imagem, a produtividade, o desejo. O amor, nesse sentido, permanece escandaloso. Não porque a sociedade o proíba, mas porque ele ainda nos expõe ao imprevisível. E talvez seja exatamente aí que resida sua força. Em lembrar que viver de verdade nunca foi o mesmo que apenas evitar a dor.
Talvez amar hoje seja, no fim das contas, um gesto de resistência. Não mais contra a moral rígida de outros séculos, mas contra a lógica fria da substituição constante. Permanecer, então, torna-se quase contracultural. Insistir num vínculo, aceitar suas imperfeições, atravessar desconfortos sem correr imediatamente para a fuga — tudo isso devolve ao amor uma dignidade que o nosso tempo tenta dissolver em facilidade, velocidade e consumo. E talvez seja por isso que filmes como Closer ainda incomodem tanto: porque eles nos lembram que, mesmo num mundo em que quase tudo parece possível, continuar amando ainda é uma das experiências mais difíceis, mais desorganizadoras e mais humanas que existem.
"Amar é dar o que não se tem..."

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