O universo Retrofuturista de Simon Stålenhag sai dos livros e do RPG para ir direto para sua TV. São 8 episódios recheados de questões acerca do tempo, da vida e do ser.
Esse texto não contém Spoilers dos episódios (É um crime estragar sua experiência com essa bela obra)
Contos do Loop (Tales From The Loop) é uma série de TV produzida originalmente pelo serviço de streaming da Amazon, o Prime Vídeo. A criação do seriado ficou a cargo de Nathaniel Halpern. Nathaniel H. ficou conhecido pelo seu belo trabalho em Legion e em Outcast, então se você conhece uma dessas duas séries sabe muito bem do que eu estou falando. Nathaniel é importantíssimo por levar todo esse universo para uma tela, mas não dá pra falar sobre Contos do Loop sem falar de Simon Stålenhag.
Simon Stålenhag é um artista, músico e designer sueco, especializado em imagens digitais. Em meados de 2017 Simon lança seu trabalho que o deixaria mundialmente conhecido, um livro de ilustrações recheado de retrofuturismo em um ambiente bucólico. As pinturas e histórias de Stålenhag ocorrem em uma versão alternativa da Suécia dos anos 80 e 90, principalmente no interior de Mälaröarna, uma série de ilhas a oeste de Estocolmo, e como essa realidade alternativa surgiu? O desenvolvimento do “Loop”, um acelerador de partículas que impacta positivamente e negativamente a realidade dos moradores de uma pequena cidade. Esses trabalhos incrivelmente cativantes e o texto que o acompanham capturam talvez uma realidade não muito distante do que vivemos: abordar as várias maneiras em que o desenvolvimento da tecnologia e da natureza pode criar estragos e maravilhas em nosso mundo — além disso, seu impacto na próxima geração. Isso, é o que sintetiza Simon Stålenhag nesse seu incrível livro.Antes de começar a falar sobre a série, acho válido da minha parte dar uma palavrinha sobre a estética Retrofuturista. Como a própria palavra já deixa um pouco óbvio, Retrofuturismo é uma mistura de elementos passados com um possível futuro. O Futurismo é a projeção e antecipação dos fatos, o Retrofuturismo é a lembrança dessa antecipação; pode-se dizer que, esse estilo é “o futuro visto do passado”, um futuro vintage.
A série foi encomendada em 17 de julho de 2018 e estreou na Amazon Prime Video em 3 de abril de 2020, os oito episódios da primeira temporada foram lançados simultaneamente. Todos os episódios foram escritos por Nathaniel Halpern. A direção ficou a cargo de um bom time de diretores, cada qual responsável por um único episódio, entre nomes conhecidos temos Jodie Foster, ela dirigiu o último episódio da temporada. No elenco temos nomes bastante conhecidos: Rebecca Hall e Jonathan Pryce, e nomes não tão conhecidos pelo grande público, mas igualmente excelentes: Christin Park, Daniel Kang, Jane Alexander, Paul Schneider entre outros.
A série de TV não foi concebida para replicar em tela a mesma história presente no livro de Simon, a série tem sua própria história e seus próprios personagens, mas isso não é algo negativo, muito pelo contrário, um dos aspectos que mais me fascinou foi justamente a originalidade da narrativa. No inicio pode soar estranho, eu pelo menos nunca tinha visto uma estrutura narrativa como aquela antes. Em uma primeira vista Contos de Loop parece ser mais uma de várias séries de “estrutura antológica”, essa estrutura apresenta uma nova história e novos personagens a cada episódio (Black Mirror, Room 104, Modern Love, Philip K. Dick’s Electric Dreams são exemplos de series que usam essa estrutura) há também séries antológicas em que os episódios acompanham uma mesma história, mas a cada temporada uma nova história e personagens são apresentados (True Detective, American horror story, American Crime Story). Contos de Loop se encaixa mais no primeiro tipo, mas ainda assim não é nada parecida com qualquer outra antologia. A série nos apresenta uma história nova com foco em personagens específicos a cada episódio, (como se realmente fossem pequenos contos) mas cada história e personagens não são completamente independentes, cada episódio exerce um certo impacto levando causa e efeito para outros episódios, cada personagem é protagonista de um episódio e em outros episódios o mesmo personagem é um coadjuvante, por vezes chega a ser até um figurante. Essa estrutura confere à série um tom narrativo único, conferindo fluidez e um ótimo dinamismo no desenvolvimento dos personagens.
Mas do que se trata os “Contos do Loop” (Tales From The Loop)? Bem, Russ Willard (personagem de Jonathan Pryce) pode me ajudar a te responder essa pergunta.
Boa noite.
Ou bom dia, dependendo de onde mora.
Meu nome é Russ Willard,
e sou fundador do Centro de Física Experimental de Mercer,o qual foi construído aqui, abaixo da cidade de Mercer, Ohio, e que por aqui é chamado de “O Loop”.
Seu propósito?
Desvendar e explorar os mistérios do universo.
Como resultado de nossa pesquisa singular, aqui você verá coisas… Bem, que diria ser impossível.
Ainda assim, estão aqui. Todos na cidade são conectados ao Loop de uma forma ou de outra.
E você conhecerá muitos de seus contos, no devido tempo.
Então…agora, começaremos.
Vamos lá (mas sem spoilers, é claro) a história da série se dá em uma cidadezinha pequena chamada Mercer, localizada em Ohio, nessa cidade está instalado o Loop, um laboratório subterrâneo onde coisas que desafiam o espaço-tempo são criadas. Todos os moradores têm suas vidas afetadas pelo loop. Pode-se dizer que o seriado é uma coleção de contos sobre a interferência do Loop na vida dessas pessoas.
Olhando assim, parece tudo muito simples e chato, poxa, uma série que conta a história de uma cidade e um laboratório?! Pode parecer que a história é assim tão simplista, mas a série é isso e muito mais. Vejo por aí muitas pessoas comparando essa série com Black Mirror, na minha opinião a única similaridade que vi nessas duas produções está no fato de tratarem da relação entre ser humano e tecnologia, entretanto, Black Mirror se pauta em mostrar o lado negro da tecnologia, enquanto Contos do Loop aborda o impacto não apenas da tecnologia, mas da relação do homem com o desconhecido. Esses “Contos de Loop” são sobre a condição humana perante as forças do universo. Arrisco-me a chamar esse seriado da Amazon de “Anti-BlackMirror”.
O Loop é um laboratório que já está instalado nessa cidade há muitos anos, mas o que mais chama nossa atenção não é o laboratório em si, o que realmente acaba nos chamando atenção são os pedaços, os fragmentos de invenções e artefatos desenvolvidos dentro do Loop, invenções que um dia poderiam ter sido úteis e que no tempo presente da narrativa, se encontram abandonadas ao relento. Se tem algo presente nos livros de Simon Stålenhag são essas ruínas de estruturas e criaturas artificiais que um dia foram imponentes e gloriosas. Isso me fez pensar instantaneamente no soneto de Percy Bysshe Shelley, publicado em 1818, O soneto é chamado de “Ozymandias”:
Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse: — Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.
De certo modo, esse soneto de Percy Bysshe Shelley exerce uma espécie de fascínio, os versos de Ozymandias são muito cultuados na cultura pop, esse soneto (ou referências a ele) estão presentes em obras como: Breaking Bad, Watchmen, Alien Covenant, Monty Python, The Ballad of Buster Scruggs…entre outras obras…até mesmo na série de comédia “How I Met Your Mother”, e não, isso não é coincidência, ainda escreverei um texto aqui somente sobre o impacto desse soneto na cultura ocidental, mas por enquanto vamos voltar aos Contos do Loop.
Nem a imponência do intocado Loop e seus produtos resiste ao tempo e tudo pode ser esquecido. “Nada resta: junto à decadência das ruínas colossais,ilimitadas e nuas. As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.” No caso do Loop suas ruínas estendem decadentes em um espaço bucólico e solitário cheio de florestas e segredos, tudo em tons marrons e amarelos frios, uma melancolia que não apenas está restrita aos humanos, a melancolia é exalada para todos os lados em Tales From The Loop, aqui, tudo, absolutamente tudo é solitário. Tudo isso reforçado com a linda e igualmente triste trilha sonora composta por Philip Glass, Paul Leonard-Morgan, músicas que tocam a alma. (Link para ouvir a trilha no Spotify)
Como eu disse anteriormente, essa é uma série não apenas sobre os efeitos da tecnologia e de nossas descobertas científicas, essa é uma obra sobre a condição humana. No decorrer de 8 belos episódios você irá acompanhar uma jornada de personagens perdidos em suas próprias buscas, jogados em meio ás questões relacionadas a identidade, tempo, morte e tudo o que mais perturba a nossa inevitável incompletude.
Apertar o play em Contos do Loop (Tales From The Loop), é embarcar em um mundo desconhecido e solitário, não como telespectadores, mas somos jogados lá como um forasteiro espiando as vidas e os mistérios de pessoas comuns e singulares, e que apesar de tudo, não são pessoas diferentes de nós.Boa noite.
Ou bom dia, dependendo de onde mora. E você conhecerá muitos de seus contos, no devido tempo.







1 Comentários
Excelente série e excelente texto
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