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Amores líquidos, sentimentos e códigos binários escorrendo pelas mãos em tempos de hiperconectividade


A morte do Flâneur e a dificuldade de cada um de nós para encontar o Wally


Em uma multidão, solidões se esbarram e ninguém se dá conta.


Já percebeu o quanto estamos presos em nossos próprios mundinhos particulares, cada um de nós, correndo apressados, martelando problemas na cabeça e tentando encontrar uma solução, todos presos em uma bolha individual. Somos animais coletivos, temos a necessidade de formar grupos, mas volta e meia nos perdemos como um náufrago em uma ilha virtual afogados em nossa própria individualidade.

Você acorda, prepara um café, checa seu email, lê as noticias do dia, dá play na sua biblioteca de músicas em modo aleatório no Spotify, contacta seus amigos via whatsapp, vai descendo o feed do Instagram pensando o quanto a vida de tal pessoa parece ser mais divertida que a sua, logo em seguida você abre o Twitter e escreve um post dizendo o quanto sua vida é monótona e se pergunta se realmente a grama do vizinho é mais verde. Essa, meu amigo, é a sua ilha, e você é só mais um dos milhares de náufragos isolados nesse mar de códigos binários.

                                            Uma das obras de Edward Hopper

Tudo isso é bem comum, já faz parte de nossa vida corriqueira, mas agora nesse ano de 2020 essa condição de náufragos do cyber-espaço é praticamente uma obrigação. Em tempos de COVID-19 manter distância se tornou um artifício de sobrevivência e preservação. Em tempos como esses ninguém vai ser taxado de vagabundo por ficar horas e horas na frente do computador ou maratonando aquela série interminável na Netflix. Temos um passe livre, mas isso não quer dizer que essa situação deixou de ser problemática. Nesse período de quarentena, nos tornamos um quadro pintado por Edward Hopper. A obra de Edward Hopper é sublime na sua visão realista do que se esconde no interior do quotidiano de muitos: solidão e melancolia. As suas paisagens e protagonistas são não só representativos de um estilo de vida do século XX, como também agora refletem o cenário atual de um mundo contemporâneo em crise.

Cena do filme "Medianeras" (2011)


Por mais que as representações de Hopper hoje pareçam um pouco distantes da nossa realidade, não estão, mesmo sendo representações do século XX, essas pinturas nos dizem muito da solidão que nos encontramos, a principal diferença entre a nossa realidade com os quadros de Hopper é o impacto que a tecnologia exerce em nós, tornando-nos solitários conectados. A internet nos aproximou do mundo, mas nos distanciou da vida, principalmente de uma vida reflexiva.

Falar de vida reflexiva me faz lembrar de um termo, o “Flâneur”. Termo que em uma tradução literal do francês significa “vadio”, mas que no século XIX, o poeta francês Charles Baudelaire e o filósofo alemão Walter Benjamin definiram como flâneur a figura que vaga na cidade afim de experimentá-la em toda a sua completude. Flâneur é o indivíduo que caminha sozinho tranquilamente pelas ruas afim de contemplar o ambiente que o cerca nos seus mínimos detalhes, ele absorve tudo sem se inserir ou manipular aquele espaço, ele é apenas um observador em um ato puro de observar.

Os Flâneur’s morreram, mas não agora, eles estão morrendo aos poucos desde as primeiras transformações geradas pela Revolução Industrial e toda a correria que veio de brinde. Em meio ao frenético fuxo informacional que estamos sujeitos, ser um flâneur em uma era de bombardeamento de geração e consumo de dados e mais dados e de ritmo acelerado, é impossível; agora, em tempos de pandemia, ser flâneur é inapropriado. A crise pandêmica é o último golpe no coração do flâneur.

Em 2011 o cineasta argentino Gustavo Taretto lançou o filme “Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual”. No filme, Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) vivem na mesma rua, em edifícios opostos, mas eles nunca se conheceram. Eles andam pelos mesmos lugares mas nunca notaram um ao outro. Nunca notaram um ao outro porque se encontram presos em suas ilhas e ambos se sentem solitários, inclusive este é um sentimento presente durante todo o enredo do filme. Logo no início do filme percebemos a impossibilidade dos personagens de contemplar a exterioridade. Para Martin, ser um Flâneur é impossível não por falta de vontade própria, mas é impossibilitado pelo próprio espaço que o insere. A palavra medianera faz referência às paredes dos prédios nas quais são isentas de janela, aquela que isola uma area da outra.

Cena do filme Medianeras. Martin e a impossibilidade Flâneur

Mariana

Enquanto Martin é um Web Designer que passa seus dias plantado na frente da tela do computador, Mariana, fadada a solidão repentina ao voltar a morar sozinha, ainda busca o Wally jamais encontrado no livro “Onde está Wally”.

Ambos parecem ser almas gêmeas, moram próximos, sempre passam um pelo outro, mas infelizmente, nunca se notam, a agitação do dia a dia, e o rosto vidrado em uma tela luminosa os impede. (algo te parece familiar? É, sim, acontece conosco o tempo todo). Em Modernidade líquida e em Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, Bauman (Zygmunt Bauman foi um sociólogo e filósofo polonês) nos mostra o quão dependentes estamos de uma lógica imediatista, de rápida satisfação, do consumo exacerbado e a cega aceitação de artificialidade. “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Temos muitas escolhas, muitas opções, descartamos e somos descartáveis como copos de plástico depois de darmos um ultimo gole. No filme, Mariana se relaciona com manequins de vitrine, dando-lhes banho, abraçando-os…aqui fica escrachado essa metáfora, juntamente com a solidão sentida pela personagem. No fundo, em meio a essa liquidez, todos somos a Mariana com os manequins e quando nos cansamos, apenas substituímos os manequins. A Mariana passa o tempo todo procurando seu Wally, quando na verdade ele sempre estava mais perto do que ela imaginava.


E você, ainda está a procura de seu Wally?

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