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Muito Romântico - Filme nacional e experimental: Uma catarse, a arte pela arte

 



Uma viagem sem destino regada a psicodelismo e minha escrita um tanto quanto desnorteada afogada em álcool, Dicloridrato de Hidroxizina (acidentalmente) e o álbum homônimo de Elephant Stone.


Em tempos de COVID-19, quarentena, tédio e ansiedade…tudo anda muito á flor da pele, dar um tempo para realidade é um bom refúgio, e como sempre eu perco mais tempo “zapeando” a Netflix do que realmente assistindo algo, eu, já bastante entediado e (levemente) bêbado, pra piorar, devido à ansiedade, começo a ter irritação na pele; tomei um antialérgico (Dicloridrato de Hidroxizina)…comecei a ficar extremamente relaxado…e onde eu estava mesmo? Ah é…afogado em um tédio sem fim, chapado e zapeado o catálogo da Netflix. Fui para a sessão de filmes nacionais, filmes independentes…fui perdendo o interesse pela procura, fui voltar a escrever um roteiro para um canal no youtube (um novo projeto vai sair logo logo), bebi um gole de Gin e voltei meus olhos novamente para a TV, no final da lista um filme chamou-me a atenção. “Muito Romântico”, fui ler a sinopse, e lá dizia:

“Recém chegado a Berlim, um casal de artistas encontra um portal para o cosmos. É o começo de uma jornada que transcende o tempo e o espaço”
Por#@, tô chapado demais pra assistir isso?! Mas porque não???

                                                          Meu ambiente de escrita em caos instaurado pelo filme e por esse processo criativo

Depois que o filme acabou peguei um caderno e uma caneta, coloquei “Elephant Stone” pra tocar, mais algumas cervejas e comecei a escrever todo esse texto aqui. Então me desculpe minha falta de foco em alguns momentos. Agora vamos ao filme…

                                      Uma das primeiras cenas do longa, o casal indo de barco rumo a Berlim

Antes de mais nada, devo confessar que me surpreendeu muito encontrar esse filme no catálogo da Netflix, pois esse é um filme experimental, filme underground, daqueles que são difíceis de encontrar, por vezes são achados devido muita insistência garimpando os confins da internet, mas está ali, passando despercebido em um catálogo da gigante de Streaming só esperando ser assistido.

Muito Romântico é um filme lançado em 2016, distribuido pela Vitrine Filmes, dirigido e protagonizado por Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Gustavo já era antes conhecido por ser o protagonista de “O Som ao Redor” (2012), ótimo filme de Kleber Mendonça Filho (Bacurau).

Essa obra é estritamente experimental, esteticamente um tanto quanto particular, não só por romper com as técnicas cinematográficas tradicionais ou por suas distintas abordagens e não linearidade, mas por propor uma imersão nas sensações e em sentimentos dos personagens. Eu, percebendo logo no inicio essa proposta imersiva, peguei um fone de ouvido Bluetooth (isso somado ao meu estado alterado de consciência) posso dizer que elevei ao máximo tal imersão.

O filme leva ao pé da letra a seguinte frase: “A arte pela arte”. Os dois personagens não interpretam pessoas distantes de nós, interpretam pessoas reais, dois artistas se expressando em um filme sobre a expressão. Vez ou outra em meio ao filme, teremos a sensação de que o filme é um grande poema cuja toda a obra é um mar de subjetividade. Existe sim um carácter subjetivo, mas ele não está em totalidade. O significado das mensagens de um filme é um produto muito mais da interação entre o “produtor” e “receptor” do que da imposição de sentidos de um sobre o outro. Se pensarmos no espectador (receptor) como alguém que só recebe passivamente os conteúdos das mensagens transmitidas naqueles artefatos e que tem sua atividade intelectual bloqueada pela sutileza e pela complexidade do audiovisual, este receptor, sendo inútil em abstração não existe, pois se existisse, as teorias acerca da recepção e do sujeito não teriam valores e seriam igualmente inúteis. O expectador deve estar ativo, não só como receptor alheio a subjetividade, mas, como minha experiência em “Muito Romântico” mais do que experimentar, o verbo que dita a relação entre obra e audiência é o experienciar.

Os dois personagens são artistas que acabaram de desembarcar em Berlim, artistas buscando transmitir da melhor forma aquilo que sentem. As câmeras dos cineastas registram os atores/autores buscando as formas artísticas que melhores sanam suas necessidades criativas. Eles cantam, eles performartizam, pintam e filmam e em torno disso, existe uma viagem introspectiva através de um buraco na parede, uma viagem através do espaço-tempo; pode-se dizer que há um filme dentro do filme. É como eu tinha dito anteriormente, é “a arte pela arte”. Tanto que arrisco a dizer que esse filme é bem mais que isso, ele é filme, é poesia, é música, é artes plásticas, é fotografia…enfim é uma quebra da fronteira cinematográfica, é uma reinvenção de linguagens artísticas. Esse é um filme que não pode apenas ser um produto exibido no cinema, mas também exibido em galerias de arte contemporânea.


A fisionomia de cada objeto num filme é o resultado de duas fisionomias — uma é aquela própria ao objeto, que é independente do espectador e a outra é determinada pelo ponto de vista do espectador e pela perspectiva da imagem. Não posso dizer que entendi por completo toda a poesia lírica exposta no longa, muito menos posso dizer que entendi todos os simbolismos imagéticos, não explicarei nada aqui e não darei resposta alguma, pois seria um crime estragar a experiencia imersiva e profunda que cada um de nós pode ter com esse filme.

O ritmo é lento, a narrativa é, digamos, não linear (se é que realmente existe uma narrativa aqui), o filme se vale por uma busca e encontro estético que, pelas forças do destino se desenrola em meio a um romance (ou a falta dele). Com a filmagem feita na película 16 milímetros e o uso de fotografias em filme de 35 milímetros e locações coloridas e ao mesmo tempo “mortas” causa-nos um misto de nostalgia, solitude e reflexão. A trilha sonora lenta e introspectiva vez ou outra da lugar a uma trilha agitada e enérgica, evocando uma fluidez profunda de sentimentos ambiguos tanto nos personagens quanto em nós, meros passageiros espiando a vida daquele casal em uma Berlim não tão sedutora.

                                                 Um casal e seus contrastes, sozinhos em seus mundos silenciados

O teatro moderno não usa mais o solilóquio declamado e, na sua falta, os personagens apenas silenciam nos momentos de maior sinceridade. O filme também faz uso desse artifício. Neste monólogo silencioso, a alma humana solitária pode encontrar uma língua mais cândida e desinibida do que no solilóquio declamado, pois ela fala de forma instintiva, subconscientemente. É nesses momentos de puro silencio que o longa evoca uma solidão à dois, tão triste, tão humana, tão presente e atual. Fiz algo parecido em 2019 quando produzi um pequeno curta mudo e monocromático para a Faculdade de Artes Visuais da UFG (Solilóquio — Um conto de solidão) Link para assistir meu curta.


Me vi como um terceiro personagem em “Muito Romântico” e de certa maneira, essa é uma experiência que carregarei pro resto da vida.
Viva o cinema nacional, viva a arte. A arte é feita pelo homem, para o homem, a fim de transformá-lo enquanto homem; deste modo o homem se encontra em uma constante transformação.



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