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Fury Corações de Ferro: Um filme sobre homens quebrados, entre Eros e Thanatos. (E outras pinceladas de teoria Freudiana)

 “A base e a possibilidade de uma arte do cinema residem no fato de que todas as pessoas e todas as coisas pareçam o que são. — (Béla Balázs)

 


Mesmo que você não assistiu ao filme, a leitura desse texto ainda se faz interessante. Se você já viu o filme, ótimo!

“Os ideais são pacíficos. A história é violenta.” Assim diz Don ‘Wardaddy’ Collier (Brad Pitt) a Norman (Logan Lerman), o jovem e inocente novo integrante de sua tripulação de cinco homens nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial — e essa é a filosofia do filme em poucas palavras: ideais (pacifismo, ‘não matarás’ e assim por diante) estão muito bem em tempos de paz, mas quando você está em uma guerra ,no meio da História, você tem que ser implacável, e você tem que matar. Não matar indiscriminadamente, é claro; isso seria psicótico. Os soldados alemães, no entanto (e as SS em particular) são um alvo justificável.

Brad Pitt não está apenas interpretando um soldado aqui. Ele está interpretando uma variação de seu papel em “A Árvore da Vida (2011)” , o pai severo, mas bem-intencionado transmitindo lições de vida necessárias. A lição nº 1 é aprender a matar alemães a sangue frio — uma lição ensinada em uma cena, na qual Don dá uma arma a Norman e ordena que ele, na frente de todo o pelotão coloque uma bala em um alemão. “Eu preciso que você se apresente,” ele diz sem rodeios enquanto o jovem hesita, finalmente pegando a arma e forçando o garoto a puxar o gatilho. “Isso deveria fazer de mim um homem?” pergunta Norman amargamente, enquanto Don vagueia para o lado parecendo triste, mas resignado. Ele não gosta de fazer isso, mas tinha que ser feito.

Cena em que Don dá uma arma a Norman e ordena que ele mate um alemão

Com a recusa de Norman, Don o obriga

A tripulação do tanque — nossos protagonistas — é o elemento mais importante, é claro. Shia LaBeouf é intenso e surpreendentemente eficaz como ‘Bíblia’, e parece até irônico, mas é o personagem mais pé no chão do grupo); Michael Pena é sólido (embora ele não tenha muito o que fazer, representando mais um estereótipo) como ‘Gordo’ hispânico e semi-alcoólatra enquanto Jon Bernthal de “O Justiceiro” é o caipira grosseiro (“Por que você está sempre gritando comigo?”, ele lamenta; “Porque você é um animal”, responde Don). Já Norman, como vimos anteriormente, é em primeiro momento um personagem passivo, mas que vai se tornando mais duro conforme a trama avança, principalmente no ponto alto do filme que será o ponto central também desse texto. Resumidamente temos um grupo bem estereotipado: Além do comandante durão, temos o religioso (Shia LaBeouf), o latino (Michael Peña), o maluco (Jon Bernthal) e o novato (Logan Lerman).


As duas mulheres alemãs, o confronto à mesa e a representação do Eros e Thanatos Freudiano:

Agora quero tratar do que na minha opinião é a melhor parte do filme. E é aqui que o filme brilha em não tratar apenas da guerra mas sim de seus efeitos no comportamento e na conduta desses personagens desregulares. Mas antes de começar a falar sobre as cenas que irei tratar aqui, vamos primeiro falar sobre o que é a Teoria das pulsões de Freud.

Lá em meados de 1920 Freud já havia comentado sobre a teoria das pulsões na sua obra “Além do princípio do prazer”, voltando novamente à elas em seu maior best-seller, “O Mal-Estar na Civilização” (1930). Em um resumo geral, Freud fala sobre pulsões amorosas e destruidoras e a vida em sociedade agindo contra os impulsos que existem no inconsciente de cada indivíduo. Esses instintos são divididos em dois: A Pulsão de Vida (Eros) e a Pulsão de morte (Thanatos).

A Pulsão de vida: Como o próprio nome deixa subintendido, é um impulso do bem. A pulsão de vida pode ser representada pelas ligações amorosas que estabelecemos com outras pessoas e também conosco. Essa pulsão traz em si impulsos de autoconservação e erotismo, e é exatamente por isso que Freud relaciona a pulsão de vida à figura de Eros (deus do amor na mitologia grega). Essas “pulsões” tbm podem ser chamadas de “instintos”. A pulsão de vida é o instinto que lida com a sobrevivência básica, prazer e reprodução. Essa pulsão não se restringe a um mero “instinto sexual”, mas está relacionada com toda a manutenção e preservação da vida do indivíduo.

A pulsão de morte: Lá em seu livro Além do princípio do prazer (Beyond the Pleasure Principle) Freud diz:
O objetivo de toda vida é a morte. (1920)

 Ele observa que muitas pessoas a experimentam após um evento traumático (como a guerra, assim como os personagens do filme), que muitas vezes revive experiências (veremos um pouco mais disso na cena em que os personagens estão sentados à mesa na casa das duas mulheres alemãs). Para Freud as pessoas têm um desejo inconsciente de morrer, porém este desejo é equilibrado pela pulsão de vida. O próprio comportamento auto-destrutivo é uma maneira de expressar os extintos de morte, tal expressão é por vezes demonstrada em forma de agressão e violência, isso quando à direcionamos para os outros, mas podemos direcioná-la a nós mesmos, já que Freud observa que muitas pessoas estão inclinadas a repetir experiências dolorosas, pessoas que se colocam em situações que elas mesmas sabem que se darão mal e assumem tal risco. Podemos tomar como exemplo uma mulher que se sente atraída e se relaciona com homens cafajestes ou de índole questionável, vai trocando de companheiro seguidas vezes, mas o final é sempre o mesmo, acaba sofrendo e traída. O apostador compulsivo também é um bom exemplo, mesmo sabendo que sua aposta é uma furada, insiste em arriscar. Essa pulão de morte é o que podemos chamar coloquialmente de “dar murro em ponta de faca”. Irracionalmente iremos repetir uma vivência negativa. Ou seja, o ser humano possui uma tendência autodestrutiva . Ele concluiu que as pulsões orgânicas são voltadas para o restabelecimento de algo anterior — para uma repetição. “Seria contrário à natureza conservadora das pulsões que o objetivo de vida fosse um estado nunca antes alcançado”, escreveu em Além do Princípio do Prazer:

“Terá de ser, isto sim, um velho estado inicial, que o vivente abandonou certa vez e ao qual ele se esforça por voltar.”

 A partir desse raciocínio, Freud constatou que o ponto mais radical do retorno a experiências anteriores é aquele lá atrás, no qual ainda nem estávamos vivos, já que “o inanimado existia antes do vivente”. A primeira pressão das nossas pulsões como seres vivos teria sido uma volta a esse estado de inércia. Uma marcha à ré da vida para a ausência de vida: uma pulsão de morte. A pulsão de morte está por trás da prática de esportes radicais, de gente que dirige a 180 km por hora nas rodovias, de pessoas que gostam de desafiar a polícia. Só não nos matamos porque o id que leva à satisfação desses impulsos vive em conflito com as censuras do superego. Quando o id de alguém com pulsão de morte está dominando a mente, é a hora em que a pessoa brinca de roleta-russa. O Thanatos na mitologia grega é a representação da morte.

Vamos voltar ao filme…

Em torno da marca de 54 minutos do filme, Don (Brad Pitt) e Norman (Logan Lerman) entram em um prédio, lá encontram duas mulheres alemãs, uma mais velha, na casa dos 40 anos, Irma (Anamaria Marinca) e a jovem Emma (Alicia Von Rittberg). No primeiro momento, nossos dois personagens masculinos agem com truculência, em primeiro momento vemos os dois lados em meio a um conflito de confiança, e ao mesmo tempo, dualidades, temos Don e Irman simbolizando a maturidade, ambos mais centrados. Já Norman e Emma simbolizam a inocência e o descobrimento.

Don e Irma

Norman e Emma

Enquanto Don e Norman estão na casa das duas mulheres, os outros estão extravasando suas pulsões de vida através do álcool e prostitutas no lado de fora da casa, longe desses quatro personagens. eles, os outros, estão em um pendulo entre Pulsão de vida e pulsão de morte (esse segundo está pesando mais na balança). Em paralelo a devassidão do grupo, Don e Norman estão pela primeira vez durante o longa, ociosos, experimentando a calmaria de uma vida normal e comum. Norman está tocando piano e Don está se barbeando, o que chama a atenção das duas mulheres, fazendo-os parecerem homens bons e tranquilos, muito diferentes da impressão inicial. Podemos dizer que tanto as mulheres quanto nossos dois personagens centrais estão representando aqui a pulsão de vida.

Conforme o tempo vai passando, percebemos que Don e Irma se aproximam e com Norman e Emma não é diferente. Pela primeira vez dos dois lados há paz, compreensão, há vida e satisfação. Emma canta a música que Norman toca no piano, demonstrando estar em sintonia com o jovem rapaz. E é a partir desse momento que uma fala abrupta de Don corta todo esse clima de comercial de margarina. Don diz: “Ela é uma menina pura. Se não for para o quarto com ela, irei eu.” E a câmera foca nas marcas da guerra estampadas nas queimaduras nas costas de Don, o que nos remete a pequenas doses de pulsão de morte em meio a toda aquela calmaria feliz. Emma vai para o quarto, Norman a segue, ambos se sentem confortáveis em serem a primeira vez um do outro (Essa é uma grande expressão da pulsão de vida aqui). Irma se mostra contrária a tudo isso. Irma tenta entrar no quarto, Don a impede e diz: “Não Entre! Eles são jovens e eles vivem.”

Enquanto isso, Norman e Emma conversam no quarto. Ele pede para ver as mãos delas afim de “ler” suas mãos, pois nas palavras dele “as mãos dizem muito sobre uma pessoa”. O mais interessante entre a relação entre todos eles é que as duas mulheres só falam alemão, então a comunicação entre eles é limitada, mas isso não impede a formação de laços afetivos e toda a expressão do “Eros”. Norman lê as mãos de Emma e diz que ela irá encontrar o grande amor de sua vida em breve. Quando os dois saem do quarto podemos prestar atenção em como Don e Irma encaram a situação. Don olha para Norman como se o parabenizasse por uma missão cumprida, como se no fundo ele dissesse: “Agora sou um homem de verdade”. Já Emma recebe de Irma olhares de desaprovação, como se o que ela estivesse agora imunda, como se isso fosse inadmissível. Para Freud, A maneira como Irma lida com a situação é exatamente igual como a sociedade lida com as pulsões (assim como mostra Freud em O mal-estar na civilização : “Deve-se reprimir as pulsões sexuais e violentas, pois pulsões são instintivas e o homem civilizado não pode se comportar instintivamente como um animal”. Pelo menos é isso que a sociedade e o “viver civilizado” te cobra.

Enquanto nos dois jovens temos um clima amoroso e de tensão sexual (Eros), em Don e Irma temos uma relação de compreensão e respeito mutuo o que também configura o Eros, pois podemos enxergar além da pulsão de vida, um amor fraternal em relação dos mais velhos aos jovens, mantendo assim a harmonia instaurada.

A pulsão de Vida X A pulsão de morte:

E é nesse momento em que nossos quatro personagens em harmonia se preparam para sentar-se à mesa como uma família…alguém bate na porta, com força e pressa de um bêbado inconveniente. Os outros personagens que fazem parte de nosso grupo de homens quebrados se juntam à mesa. Todos bêbados, que estavam satisfazendo seus desejos mais sádicos, e é agora que temos a pulsão de morte representada em sua essência.

O resto do grupo agora presente á mesa, representando a pulsão de morte

Logo na chegada dos rapazes, regada a comentários depreciativos relacionados ao “possível” ato sexual de Norman, vemos que Don não está nada feliz com seus companheiros invadindo o local, que antes era uma calmaria (Eros), agora está se tornando um caos (Thanatos). Esse na minha opinião é o ponto alto do filme, pois o sentimento de incômodo e inquietação ultrapassa a tela, nós como telespectadores estávamos tão acalmados e aliviados com a calmaria comum (pulsão de vida) que abruptamente somos lançados a um ambiente tóxico, inconveniente e violento (pulsão de morte). Tudo o que se segue até aqui é uma sucessão de incômodos. Sentam todos á mesa como se fossem uma família feliz.

Toda a situação incomoda vai escalonando…até chegar no “devir”, nesse retorno aquilo que nos faz mal, a autodestruição. Quero encerrar o texto por aqui para que possam pensar um pouco mais sobre isso. Esse não é mais um filme de guerra, esse é um filme sobre “pulsões/instintos de vida e morte”. O ato do filme com as alemãs é na minha opinião uma das melhores cenas de conflito da história do cinema.

…até a próxima…

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