“A base e a possibilidade de uma arte do cinema residem no fato de que todas as pessoas e todas as coisas pareçam o que são. — (Béla Balázs)
Mesmo que você não assistiu ao filme, a leitura desse texto ainda se faz interessante. Se você já viu o filme, ótimo!
As duas mulheres alemãs, o confronto à mesa e a representação do Eros e Thanatos Freudiano:
O objetivo de toda vida é a morte. (1920)
Ele observa que muitas pessoas a experimentam após um evento traumático (como a guerra, assim como os personagens do filme), que muitas vezes revive experiências (veremos um pouco mais disso na cena em que os personagens estão sentados à mesa na casa das duas mulheres alemãs). Para Freud as pessoas têm um desejo inconsciente de morrer, porém este desejo é equilibrado pela pulsão de vida. O próprio comportamento auto-destrutivo é uma maneira de expressar os extintos de morte, tal expressão é por vezes demonstrada em forma de agressão e violência, isso quando à direcionamos para os outros, mas podemos direcioná-la a nós mesmos, já que Freud observa que muitas pessoas estão inclinadas a repetir experiências dolorosas, pessoas que se colocam em situações que elas mesmas sabem que se darão mal e assumem tal risco. Podemos tomar como exemplo uma mulher que se sente atraída e se relaciona com homens cafajestes ou de índole questionável, vai trocando de companheiro seguidas vezes, mas o final é sempre o mesmo, acaba sofrendo e traída. O apostador compulsivo também é um bom exemplo, mesmo sabendo que sua aposta é uma furada, insiste em arriscar. Essa pulão de morte é o que podemos chamar coloquialmente de “dar murro em ponta de faca”. Irracionalmente iremos repetir uma vivência negativa. Ou seja, o ser humano possui uma tendência autodestrutiva . Ele concluiu que as pulsões orgânicas são voltadas para o restabelecimento de algo anterior — para uma repetição. “Seria contrário à natureza conservadora das pulsões que o objetivo de vida fosse um estado nunca antes alcançado”, escreveu em Além do Princípio do Prazer:
“Terá de ser, isto sim, um velho estado inicial, que o vivente abandonou certa vez e ao qual ele se esforça por voltar.”
A partir desse raciocínio, Freud constatou que o ponto mais radical do retorno a experiências anteriores é aquele lá atrás, no qual ainda nem estávamos vivos, já que “o inanimado existia antes do vivente”. A primeira pressão das nossas pulsões como seres vivos teria sido uma volta a esse estado de inércia. Uma marcha à ré da vida para a ausência de vida: uma pulsão de morte. A pulsão de morte está por trás da prática de esportes radicais, de gente que dirige a 180 km por hora nas rodovias, de pessoas que gostam de desafiar a polícia. Só não nos matamos porque o id que leva à satisfação desses impulsos vive em conflito com as censuras do superego. Quando o id de alguém com pulsão de morte está dominando a mente, é a hora em que a pessoa brinca de roleta-russa. O Thanatos na mitologia grega é a representação da morte.
Vamos voltar ao filme…
Em torno da marca de 54 minutos do filme, Don (Brad Pitt) e Norman (Logan Lerman) entram em um prédio, lá encontram duas mulheres alemãs, uma mais velha, na casa dos 40 anos, Irma (Anamaria Marinca) e a jovem Emma (Alicia Von Rittberg). No primeiro momento, nossos dois personagens masculinos agem com truculência, em primeiro momento vemos os dois lados em meio a um conflito de confiança, e ao mesmo tempo, dualidades, temos Don e Irman simbolizando a maturidade, ambos mais centrados. Já Norman e Emma simbolizam a inocência e o descobrimento.
Enquanto Don e Norman estão na casa das duas mulheres, os outros estão extravasando suas pulsões de vida através do álcool e prostitutas no lado de fora da casa, longe desses quatro personagens. eles, os outros, estão em um pendulo entre Pulsão de vida e pulsão de morte (esse segundo está pesando mais na balança). Em paralelo a devassidão do grupo, Don e Norman estão pela primeira vez durante o longa, ociosos, experimentando a calmaria de uma vida normal e comum. Norman está tocando piano e Don está se barbeando, o que chama a atenção das duas mulheres, fazendo-os parecerem homens bons e tranquilos, muito diferentes da impressão inicial. Podemos dizer que tanto as mulheres quanto nossos dois personagens centrais estão representando aqui a pulsão de vida.
Conforme o tempo vai passando, percebemos que Don e Irma se aproximam e com Norman e Emma não é diferente. Pela primeira vez dos dois lados há paz, compreensão, há vida e satisfação. Emma canta a música que Norman toca no piano, demonstrando estar em sintonia com o jovem rapaz. E é a partir desse momento que uma fala abrupta de Don corta todo esse clima de comercial de margarina. Don diz: “Ela é uma menina pura. Se não for para o quarto com ela, irei eu.” E a câmera foca nas marcas da guerra estampadas nas queimaduras nas costas de Don, o que nos remete a pequenas doses de pulsão de morte em meio a toda aquela calmaria feliz. Emma vai para o quarto, Norman a segue, ambos se sentem confortáveis em serem a primeira vez um do outro (Essa é uma grande expressão da pulsão de vida aqui). Irma se mostra contrária a tudo isso. Irma tenta entrar no quarto, Don a impede e diz: “Não Entre! Eles são jovens e eles vivem.”
Enquanto isso, Norman e Emma conversam no quarto. Ele pede para ver as mãos delas afim de “ler” suas mãos, pois nas palavras dele “as mãos dizem muito sobre uma pessoa”. O mais interessante entre a relação entre todos eles é que as duas mulheres só falam alemão, então a comunicação entre eles é limitada, mas isso não impede a formação de laços afetivos e toda a expressão do “Eros”. Norman lê as mãos de Emma e diz que ela irá encontrar o grande amor de sua vida em breve. Quando os dois saem do quarto podemos prestar atenção em como Don e Irma encaram a situação. Don olha para Norman como se o parabenizasse por uma missão cumprida, como se no fundo ele dissesse: “Agora sou um homem de verdade”. Já Emma recebe de Irma olhares de desaprovação, como se o que ela estivesse agora imunda, como se isso fosse inadmissível. Para Freud, A maneira como Irma lida com a situação é exatamente igual como a sociedade lida com as pulsões (assim como mostra Freud em O mal-estar na civilização : “Deve-se reprimir as pulsões sexuais e violentas, pois pulsões são instintivas e o homem civilizado não pode se comportar instintivamente como um animal”. Pelo menos é isso que a sociedade e o “viver civilizado” te cobra.
Enquanto nos dois jovens temos um clima amoroso e de tensão sexual (Eros), em Don e Irma temos uma relação de compreensão e respeito mutuo o que também configura o Eros, pois podemos enxergar além da pulsão de vida, um amor fraternal em relação dos mais velhos aos jovens, mantendo assim a harmonia instaurada.







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