O texto pode conter Spoilers
Existe uma tradição curiosa nos filmes de super-herói: o vilão é sempre o problema, e o protagonista é sempre a solução. Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026), dirigido por Destin Daniel Cretton, quebra essa lógica logo de cara. Depois do feitiço do Doutor Estranho no fim de Sem Volta para Casa, o mundo inteiro esqueceu que Peter Parker existe, e o filme começa anos depois, com um homem que continua salvando Nova York para uma cidade que não sabe a quem agradecer. A pergunta central deixa de ser “quem é o vilão da vez?” e passa a ser “como alguém vive depois de apagar a si mesmo?”. O filme toca em um assunto um tanto quanto complicado: A DEPRESSÃO.
Luto e melancolia: o mundo que ficou vazio
Em Luto e Melancolia (1917), Freud faz uma distinção que ajuda muito aqui. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, o que se esvazia é o próprio eu. Peter está exatamente na fronteira entre os dois. O luto é concreto: a Tia May morreu e, para MJ e Ned, ele é como se nunca tivesse existido. Mas o filme se importa mais com o que vem depois: o apartamento sem vida, a rotina sem testemunhas, as redes sociais dos amigos acompanhadas de longe, a carta para MJ contando a história dos dois que nunca chega ao destino. É a retirada silenciosa de quem não quer incomodar ninguém, e quem já esteve perto de uma depressão conhece bem esse gesto: o isolamento que se disfarça de sacrifício.
O sacrifício, aliás, é o ponto mais traiçoeiro. Peter se convence de que abrir mão da própria felicidade faz parte do trabalho, e o filme é honesto ao mostrar que essa lógica machuca mais do que protege. A culpa, a desvalorização de si e a sensação de que o afeto é um luxo que ele não merece são sintomas clássicos que nenhum feitiço apaga.
O corpo cobra a conta
O que mais me chama atenção é que a dor não fica só no discurso: ela vira corpo. Os poderes de Peter começam a falhar, as teias passam a sair de forma orgânica, os olhos viram um preto sólido, e ele precisa pedir ajuda ao professor Bruce Banner (Mark Ruffalo), que, convenhamos, entende bem de corpos que reagem ao que sentem. Algumas críticas leram essa mutação como espelho direto da solidão: a crise física acompanha a emocional. É uma imagem poderosa, porque a depressão raramente é só “coisa da cabeça”. Ela mexe com sono, apetite, energia e concentração, e muita gente descobre que está mal primeiro pelo corpo e só depois pelo pensamento.
Vale notar também a ameaça central: uma força invisível capaz de invadir a mente das pessoas, inclusive a de Peter. Não exige muita imaginação ler aí uma metáfora de pensamentos intrusivos, aquele inimigo sem rosto que conhece suas fraquezas e entra sem bater. É uma leitura, claro, e o filme não a declara, mas a metáfora está lá.
O herói e a sociedade do cansaço
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, defende que a doença típica do nosso tempo nasce não da proibição, e sim do excesso de positividade: não há mais um “você deve” vindo de fora, mas um “você pode” que a gente internaliza até virar autoexploração. O sujeito de desempenho se esgota tentando render sempre mais, e a depressão seria o colapso desse projeto.
Peter Parker é o sujeito de desempenho perfeito. Passou anos trabalhando em tempo integral como Homem-Aranha, sem rede de apoio e sem ninguém que dissesse “descansa um pouco”, guiado por um velho lema sobre grandes poderes que, na prática, funciona como uma cobrança infinita. Ninguém o obriga a continuar, e é exatamente por isso que ele não consegue parar.
“Você é Peter Parker ou o Homem-Aranha?”
A pergunta é feita por Jean Grey (Sadie Sink) e, para parte da crítica, resume o filme inteiro. Faz sentido: na depressão, a identidade costuma encolher até caber num único papel, o do funcionário exemplar, do cuidador, do herói. Quando o trabalho é tudo o que sobra, a pessoa some atrás da função. Sem Tia May, sem MJ, sem Ned, sem um mundo que o chame pelo nome, Peter vira só a máscara.
Já escrevi aqui, em Cidade das Sombras, sobre a pergunta incômoda de se somos mais do que as nossas memórias. O filme de Cretton a reformula de um jeito doloroso: o que sobra de alguém de quem ninguém se lembra? A resposta, segundo as críticas, recusa a divisão: Peter responde como Peter e como Homem-Aranha ao mesmo tempo.
Onde o filme escorrega
Nem tudo funciona. A NPR achou que a relação de Peter com a personagem de Sadie Sink fica carregada de “linguagem de terapia”, e o TechRadar sentiu falta de uma investigação mais profunda do isolamento dele. É um risco comum em filmes que tocam saúde mental: quando o roteiro explica o que a imagem já mostrou, a emoção vira didática. (Quem leu meu texto sobre The Sopranos sabe como a terapia na tela é um território delicado.) Ainda assim, é uma escolha compreensível para um blockbuster que, pela primeira vez em muito tempo, deixa as conversas pesarem mais do que as explosões.
A saída não é solo
Talvez o gesto mais interessante do filme seja contrariar a mitologia do próprio herói. O Homem-Aranha sempre foi a história de um garoto que carrega o peso sozinho; aqui, segundo as críticas, a resolução vem justamente de ter uma rede de apoio. É um recado honesto: depressão não se vence com força de vontade solitária, e ninguém, super-herói ou não, precisa carregar tudo sozinho. O filme sugere que o isolamento não é virtude, é sintoma.
Considerações finais:
No fundo, Homem-Aranha: Um Novo Dia é a história de um herói que descobre que salvar os outros não o salva. Peter Parker encarna a contradição entre o símbolo que o mundo precisa e a pessoa que precisa de cuidado: um garoto transformado em função, que esqueceu que também pode ser cuidado. Talvez seja por isso que o filme toque tanto, já que quase todo mundo conhece alguém (ou já foi alguém) que segura o mundo de pé e, em casa, não sabe pedir ajuda.
Se você está passando por problemas difíceis, e lutando uma luta que parece perdida, você não está sozinho, procure um profissional de saúde mental ou alguém de confiança. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188, com ligação gratuita.
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