Ao transformar o atrito entre Hal e John em um dilema institucional sobre a manipulação dos Guardiões, o quarto episódio de Lanternas encontra sua tensão mais eficiente até aqui, mesmo operando em meio a uma investigação afobada.
⚠️ Contém Spoilers!
A queda do clichê policial e a sombra de Sinestro
O novo episódio de Lanternas talvez seja o momento em que a série mais se aproxima de transformar a fricção entre Hal Jordan e John Stewart em um conflito genuinamente dramático. Superando o maniqueísmo habitual do veterano desiludido versus o novato intransigente, o capítulo engata, pela primeira vez, um interesse real pelo mistério ainda que a condução da investigação continue tropeçando em suas próprias pernas. Mais do que isso, a narrativa avança ao desnudar a Tropa dos Lanternas Verdes e os Guardiões, despindo a imagem de ilibada heroicidade para revelar uma instituição alicerçada em sombras, manipulações e controle.
A breve aparição de Sinestro funciona com precisão cirúrgica. Ao dar voz às desconfianças veladas sobre a conduta dos Guardiões e expor as fissuras na compostura de Hal, o vilão escarlate recalibra a relação entre o mestre e seu sucessor na segunda metade do episódio. Trata-se de uma introdução calculada e instigante, mesmo que a série não o posicione de imediato como o antagonista central desta temporada.
Na mesma linha, a cena com Lianna no quarto de hotel desenha uma camada de antagonismo sutil e eficiente. Esse triângulo composto por Hal, John e o comando dos Guardiões acaba por se demonstrar muito mais denso do que o caso de Rushville por si só. Ainda que a presença do Manhunter traga ambiguidades bem-vindas à trama, permanece o receio de como todas essas pontas se amarrarão, considerando que já alcançamos a metade da temporada e o ritmo geral ainda oscila no morno. De todo modo, é inegável que a teia de segredos finalmente começou a capturar a atenção.
Conveniências narrativas e limitações visuais
Contudo, em paralelo a esses avanços temáticos, o capítulo se perde ao abarrotar a tela com falsas pistas, reviravoltas apressadas, traições e ameaças orbitais que parecem antes empilhadas do que dramaticamente amadurecidas. Soma-se a isso a incômoda dependência de conveniências narrativas para limar o poder dos anéis confinar dois heróis de nível cósmico em um túnel por conta de um par de atiradores de elite soa forçado quando lembramos do próprio Hal projetando escudos contra explosões massivas episódios atrás. Compreende-se a contenção orçamentária e a busca por uma abordagem mais terrena, mas o roteiro precisa de soluções mais sofisticadas.
A sequência de infiltração no rancho de William ilustra essa limitação. Embora a premissa seja válida, a execução padece de um esquematismo burocrático: entra-se, descobre-se o arsenal, aciona-se o alarme e culmina-se na captura dos heróis. Falta inventividade visual e peso cênico. A direção insiste em confundir sobriedade com timidez estética a representação da fumaça, por exemplo, ressente-se de um acabamento pobre , ainda que o ataque vindo do espaço funcione como um lembrete pontual da escala do conflito.
A paranoia e o acúmulo de reviravoltas
O maior tropeço do episódio, porém, reside na ansiedade do roteiro. Há uma sucessão ininterrupta de reviravoltas sem que nenhuma tenha espaço para ressoar: a suposta morte de Zoe, a falsa pista apontando Hector Hammond (que se revela um engodo sob a identidade de Hector Gutierrez), a acusação sobre William e a posterior dedução de Hal de que a verdadeira Manhunter é Zoe. O acúmulo frenético de revelações passa a impressão de uma narrativa que teme o silêncio, falhando em construir a atmosfera sufocante e conspiratória a que se propõe.
Em termos conceituais, colocar Zoe como a figura central da ameaça Manhunter é uma escolha acertada. Fazer com que o perigo emane da personagem aparentemente mais frágil e conectada à dimensão afetiva de John introduz uma tensão pessoal valiosa, sobretudo pela omissão prévia do próprio John em relação às suas suspeitas. No entanto, nem ela nem William despontam ainda como figuras verdadeiramente magnéticas enquanto antagonistas.
O grande trunfo do capítulo continua sendo o atrito entre os protagonistas, onde a sombra de Sinestro contamina a dinâmica para além dos alívios cômicos habituais. O problema é que a série ainda não engrenou em sua totalidade: o avanço investigativo ainda depende de coincidenciais oportunas, a exposição de dados permanece engessada e os coadjuvantes operam como meras peças funcionais no jogo de adivinhação. Há um apego exagerado a um tom austero e "adulto", como se acolher a bizarrice cósmica dos Lanternas pudesse comprometer o prestígio da produção.
Veredito
Apesar dessas ressalvas, este quarto capítulo sinaliza uma evolução perceptível. Sem transformar Lanternas em uma obra irretocável, o episódio encontra um vetor mais definido: a rivalidade entre Hal e John abandona a fórmula gasta dos buddy cops, enquanto os Manhunters deixam de ser um mero ruído de fundo para se converterem nos sintomas vivos da corrupção dos Guardiões. É um capítulo tenso, imperfeito e irregular, mas inegavelmente superior aos seus antecessores.
1 Comentários
Ótima crítica. Eu tô achando essa série muito oe no chão e pouca essência dos Lanternas, mas vamos esperar pra ver
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