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Cisne Negro e Whiplash — Uma vida de sacrifício no caminho tortuoso da perfeição: Parte 1 — A dualidade de Cisne Negro

Dois filmes, dois personagens, uma mesma busca: A perfeição a qualquer custo.


Quantas vezes nos sacrificamos para darmos o melhor de nós na tentativa de se destacar naquilo que propomos?! Esse sacrifício é muitas vezes visto como algo positivo, principalmente nesse nosso cotidiano moderno e imediatista. Somos cada vez mais ansiosos, depressivos, acelerados, afogando angustias em uma rotina intermitente onde ser um “workaholic” se tornou sinal de pessoa produtiva e ambiciosa. Isso é o que vendem pra nós: “Trabalhe enquanto os outros dormem”, corra atrás de seus sonhos custe o que custar”…Estamos completamente afundados em discursos de auto-ajuda, em lereia de coaches idiotas. A questão é, realmente é válido se sacrificar em prol de sucesso e autoafirmação? Bem, acho que eu não posso te responder essa pergunta, mas com certeza posso te fazer pensar sobre isso com a ajuda desses dois filmes. Entretanto, para uma maior organização de minhas ideias irei aqui apresentar um filme por vez. (Lá em 2016 já tentei escrever esse mesmo texto abordando ambos ao mesmo tempo, mas não funcionou, o texto acabou engavetado e serviu como esboço para esse texto que finalmente verá a luz do dia). E pela primeira vez, dividirei o texto em duas partes. Essa primeira parte será focada em Cisne Negro, a segunda em Whiplash.


Cisne Negro (Black Swan - 2010) 

É um Thriller / Drama (com um “q” de terror psicológico) dirigido por Darren Aronofsky e lançado em 2010. Para quem já é acostumado com a filmografia de Aronofsky sabe mesmo antes de dar play, que esse filme não seria apenas um drama ambientado no incrível mundo do balé, o filme é isso também, mas isso é apenas a pontinha do iceberg.

Aronofsky gosta de fazer estudos de personagem. Seus personagens, de um modo geral, são obsessivos e progressivamente desenvolvem comportamentos autodestrutivos, vemos isso em Réquiem Para um Sonho (2000), Pi (1998), O Lutador (2008), e Cisne Negro não é diferente. Temos aqui a maior consagração desse diretor. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme em 2010 e garantiu a estatueta de melhor atriz para a linda e talentosa Natalie Portman.

Cisne Negro conta a história de Nina (Natalie Portman), uma jovem bailarina obcecada em interpretar a rainha dos cisnes no musical Lago dos Cisnes. Logo de cara percebemos que a personagem é emocionalmente desequilibrada. Outro ponto a se observar, é a clara frustração sexual que a personagem carrega, tal que, essa condição psicológica sirva como catalizador de seu processo autodestrutivo. A mãe de Nina, bailarina aposentada e mãe solteira, é super protetora, o que explica a personalidade infantilizada de Nina. A situação se complica quando a personagem passa a exteriorizar seus desejos reprimidos em outras pessoas. 

Para tentar entender um pouquinho do perfil psicótico de nossa bailarina devemos dar um pouquinho de atenção para a própria peça que é o objeto de sua obsessão, o Lago dos Cisnes. Resumidamente, a peça encenada em 4 atos conta a história da rainha Odette, uma jovem que foi aprisionada no corpo de um cisne pelo feiticeiro Von Rothbart. Assim como um cisne, Odette passa a viver no entorno de um lago formado pelas lágrimas de sua mãe, durante o dia Odette permanece como cisne e durante algumas horas da noite pode revelar sua forma humana. Para se ver livre do feitiço ela precisa da declaração de amor e fidelidade de um jovem virgem, mas caso ela seja traída, permanecerá como um cisne para sempre. No 2º ato conhecemos o príncipe Siegfried, (que seria o amor verdadeiro de Odette) porem para meu texto aqui, os acontecimentos desse ato não tem importância. Entretanto, é no 3º ato que conhecemos Odile, a cisne negra e gêmea má. O príncipe quando se depara com Odile pensa em se tratar de sua amada, ele é enganado, declarando amor e fidelidade a Odile. No 4° ato, Odette e o príncipe Siegfried se encontram no lago, com a traição não intencional do príncipe e a crença de que a maldição se concretizara por completo, Odette e o príncipe Siegfried se jogam juntos no lago, na esperança de permanecerem juntos pela eternidade na vida após a morte.


A dualidade

Agora que você já está completamente contextualizado(a) com O Lago dos Cisnes, vamos entender bem a profundidade que a peça exerce no plot do filme e na psiquê de Nina. Logo no início, vemos Nina como uma mulher linda, delicada e doce; o perfeito retrato do Cisne Branco. Thomas Leroy (Vincent Cassel) é o diretor da companhia de balé, ele mesmo admite que Nina é o Cisne Branco, mas, não o Cisne Negro. Thomas quer que a mesma bailarina interprete a irmã boa e a má. O obstáculo que se tornará a obsessão de nina é a liberação de seu “lado Negro”, o despertar de sua sensualidade, suas qualidades e tudo aquilo que antes se encontrava inconscientemente reprimido, inclusive seus desejos sexuais mais profundos. Aqui, Aronofsky brinca com o contraste, o bem e mal, o branco e preto, a inocência e perversão… Essa dualidade é cada vez mais reforçada pela destrutiva e obsessiva busca pela perfeição. A cada passo adiante na tentativa de atingir essa perfeição a personagem se vê cada vez mais afundada em um confronto com seu próprio “reflexo”. A câmera solta, os closes acompanhando a personagem pelas costas reforçam ainda mais o sentimento de subjetividade e angústia.


Sonho, caos, tragédia, assim podemos dividir as três principais partes do longa. No inicio temos o sonho e a determinação de nina em conseguir encarnar com perfeição a dualidade dos dois cisnes, depois temos o caos resultante dessa obsessão em atingir tal ideal, e por fim, temos a tragédia …o momento de maior angústia, de maior desespero, de maior terror psicológico, é também o climax…o suicídio do cisne branco e a completa libertação do cisne negro.



A filmografia de Darren Aronofsky é sempre metafórica e com uma pesada carga psicológica. O uso de espelhos e reflexos em Cisne Negro são um toque, um alerta de que não podemos confiar em tudo que nos é mostrado em tela, e, além disso, é um reforço visual para a “construção do duplo”. A velha história de que sempre quando nos olhamos no espelho, vemos um estranho. É o arquétipo do ser incompleto, descontínuo e fragmentado. Estamos em uma constante guerra com nossos “eu’s”, que, assim como o “ paradoxo do barco de Teseu” nunca saberei qual é o eu que representa uma total indubitabilidade, é sempre impossível dizer qual é o verdadeiro barco de Teseu, da mesma forma que é impossível dizer que a Nina era o Cisne Branco que foi morta pela sombra de seus desejos reprimidos. Assim como a Nina, não somos A nem B, não somos A ou B, e sim somos A e B, tão fragmentados e confusos quanto o Cisne Branco que se afogou na esperança de se libertar de uma maldição e viver um amor verdadeiro por toda a eternidade.


Não há arte sem ferida, não existe meio termo nesse contraste, não há vida sem dor e sofrimento. A busca pela perfeição é um caminho árduo e tortuoso. O filme Cisne negro é a fragmentação de uma autoafirmação, é o ser e seu duplo…a busca pela perfeição, um mar de incertezas, angustias e a contradição de uma vida de sacrifício no caminho tortuoso da perfeição.

Cisne Negro X Wiplash - Paralelos cinematográficos



Na segunda parte irei falar de Whiplash, filme de Damien Chazelle lançado em 2014, você não pode perder!

Até breve!

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